O POP O PAPOU ( ANO I D.MJ.)
“Michael Jackson morreu: seu passado era negro”, dizia o e-mail engraçadinho. Na televisão, um narrador descrevia as roupas dos convidados “vips”. Os que chegavam para a cerimônia fúnebre ao vivo. – Teve até lágrimas de verdade, alguém falou.
Na com-unidade do Orkut, algumas pessoas discutiam a diferença da trinca Elvis-Lennon-Jackson para com os mortais comuns: “eles pairam acima, são ícones do pop”, alguém postou (embora ninguém soubesse explicar direito o que a palavra ícone quer dizer).
Na Internet, nos jornais, nas revistas, artistas das mais variadas espécies e tribos choravam a perda como se fosse de um parente próximo. Doze pessoas se suicidaram, alguém me disse. Não viram mais sentido em permanecer no planeta sem a presença do autor do “moonwalk”
Impressionante. Fazia muito tempo que eu não via nada parecido. Comoção mundial. O caçula dos Jacksons realmente imprimiu o seu nome na calçada da fama. E no coração de muita gente.
Mas para mim, que sou uma criatura híbrida: metade psicólogo e metade ex-pop-star, a comoção me interessa num nível simbólico. Quando alguém consegue “pairar acima”, virar um ícone cultural, sua vida já não está mais sendo vivida num nível pessoal. O cidadão já não é mais dono do seu próprio nariz (no caso do Michael, literalmente). Virou domínio público. Iconificou-se. Tipo esse Jesus Cristo louro e de olhos azuis que se vê por aí. Tipo Beatles, tipo aquelas Marylins amarelas do Andy Warhol, e aquele cara gordo rindo na caixa da Aveia Quaker.
Será por isso que o cidadão Édson Arantes do Nascimento sempre se refere ao Pelé na terceira pessoa? Como se fosse realmente outra pessoa? Será que foi isso que Mark Chapman lembrou ao John antes de puxar o gatilho, e entrar para a história como o cara que matou John Lennon? Será que foi isso que matou Michael Jackson?
O pop não poupa ninguém, lembram? “O Papa levou um tiro à queima-roupa”. “Quem sai com a bunda na Caras, não sai com a cara na Bundas” , dizia um velho sábio. “Eh, oho, vida de gado”, diz outro velho sábio, parafraseando um gênio, o escritor inglês Aldous Huxley, que na década de trinta do século passado anteviu uma civilização de pessoas anestesiadas e “felizes”, vivendo uma vida de consumo programado e fugindo de qualquer espécie de sofrimento ou dor através de processos de condicionamento mental, medicina high-tech-anti-envelhecimento, e a droga perfeita: o “Soma”.
Na cena final do ainda contundente “Admirável Mundo Novo”, uma multidão “anestesiada e feliz” se atira avidamente em busca de emoções e sensações sobre um “selvagem”, que nada mais é, do que alguém diferente, alguém que ainda tem a coragem de sentir e viver a vida como ela é, com tudo o que ela tem.
Mas a verdade é que estamos cada vez mais parecidos com a multidão anestesiada e feliz de Huxley. Cada vez mais reduzidos a caras e bundas. Cada vez mais parecidos com uma massa cinzenta e disforme. Uma massa. Como os nossos carros, todos com a mesma cara e todos cinza-metálicos. Uma massa de consumidores coisificados, como nos lembram Guy Debord na sociedade do espetáculo, Giles Lipovetsky na era do vazio, e Zygmunt Bauman na pós-modernidade líquida. Uma massa cinzenta de consumidores despersonalizados.
E sobre nossas cabeças, pairam flutuando os ícones do pop. A “casa dos artistas”. O Olympo pós-moderno. Nossos deuses de plástico com suas vidas conturbadas, gerando fotos escandalosas, fofocas para alimentar a voracidade veloz dos blogs e entretenimento real-time-on-line para nos salvar do tédio que o Rivotril não cura.
Quem ou o quê matou Michael Jackson? Essa pergunta ainda vai render muito ibope para muita gente, mas a verdadeira pergunta, na minha opinião , não é essa. Pra mim, a pergunta é: como ele aguentou tanto tempo? Como o seu corpo suportou tanta química para lutar contra a natureza e contra o tempo? Como seu coração suportou tanto anestésico para fugir da realidade e sustentar a ilusão da “Terra do Nunca”?
Não pensem que eu faço uma crítica moralista ou coisa que o valha. Não tenho moral para isso. Também pertenço à massa cinzenta. Quem está fora dela? Michael Jackson e a sua morte me interessam enquanto fenômeno sócio-cultural, enquanto símbolo. Não tenho nada contra a sua pessoa, e desejo, sinceramente, que ele possa ter um pouco de paz finalmente.
Mas o que a sua existência e o seu final melancólico simbolizam? O que estão sinalizando? Coincidentemente, uma das maiores revistas do país exibia como matéria de capa, uma semana depois do adeus ao deus do pop, uma reportagem imensa sobre as maravilhas da “medicina-high-tech-antí-envelhecimento”.
Comprovando a genialidade de Huxley, nossa civilização caminha passo a passo na direção de cumprir sua assombrosa profecia.
Michael Jackson é o nosso mártir. Nosso herói que morreu de overdose de anestesia, lutando contra o tempo e contra a realidade. Ele se foi, mas nós que ficamos, conseguiremos concretizar o seu sonho. Nós realizaremos “Neverland”, a terra do nunca, onde nunca se cresce e nunca se sofre.
Nós construiremos, em seu nome, o “Abilolado Mundo Novo”, onde nunca precisamos envelhecer. Onde nunca precisamos entrar no mundo adulto, com suas contradições e sombras. A terra do nunca, onde nunca precisamos entrar em contato com a dor, a culpa, as consequências dos nossos atos.
Nós construiremos o paraíso na terra, onde seremos sempre belos e jovens. Como Dorian Gray.
Seremos sempre menininhos e menininhas ingênuos, realizando todos os nossos desejos e vivendo livremente a nossa sexualidade, sem nunca nos envolver emocionalmente de verdade com ninguém.
Menininhos e menininhas comendo eternamente a cobertura de chocolate do bolo. Só a cobertura de chocolate. Todos serão de todos, e ninguém será de ninguém. Nossos filhos serão filhos da proveta. Finalmente aposentaremos Freud e nos libertaremos de todas as amarras mentais e emocionais que ainda nos prendem ao passado sombrio. “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós!” Michael se foi. Mas sua morte não foi em vão.
Aldous Huxley só errou uma coisa: essa nova era que se inaugura para a humanidade, essa nova era de “paz e felicidade” sem limites e sem dor, não será contada a partir de Ford. O marco zero será o martírio do deus do pop. Senhores e senhoras: estamos no ano I D.M.J.





















28 de junho às 10:48
Hehehe! Comer só a cobertura,só “relar” no bolo é aquele papo q tu sempre fala da diferença entre o RELA-cionamento e o RALA-cionamento.
28 de junho às 11:15
“Quem sai com a bunda na Caras, não sai com a cara na Bundas”
essa alcunha é referente aos antigos editores do Pasquim, que andaram acusando pessoas sem ter provas, que podem ter estragado carreira e vida de gente inocente, por isso não os considerto “sábioa”, no mais o texto é excelente e realista.
28 de junho às 11:29
É… O mundo já não é mais real, tudo é superficial e o Pop não poupa ninguém!
Super cronica.. excelente!
28 de junho às 11:42
Eu sempre achei que o futuro da “massa cinzenta e disforme” seria down, triste, cheia de cimento por todos os lados. Mas pelo jeito, George Orwell só acertou parte da “previsão”: “o grande irmão zela por ti”, mas num mundo que oferece a possibilidade de outra forma de alienação, justamente a que você se refere, a alienação patética da falsa felicidade.
Sou sua fã e do Humberto há anos. Parabéns pelo seu trabalho.
Marcele (Caxias do Sul – RS)
28 de junho às 11:46
Muito bom Maltz, legal ter você como um formado de opinião na web.
Espero ansiosamente o seu livro Abilolado Mundo Novo.
28 de junho às 12:18
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é isso. grande texto.
viva ou exista!
eis o ponto.
29 de junho às 14:20
O pior é que vc está certo mesmo.
A cada dia me assombro com a bestialidade da humanidade (?).
Os seus ídolos… a massificação….
Todos iguais… todos iguais… quem escolhe “nossos” ídolos? Nós mesmos? Duvido mto.
Sobre o livro Admirável mundo novo…. Huxley simplesmente se antecipou a esse mundinho em qeu vivemos hj.
Cheio de neuras… síndromes e soma… e Da-lhe rivotril…..
Vamos amenizar nossas dores… vamos na coletividade…. vamos nos cegando….
Usar as mesmas roupas… os mesmos óculos…. curtir as mesmas musicas…
Sentir as mesmas… hummm…. sentir nem tanto….. vamos deixando o sentimento de lado.
Vamos comer só a cobertura do bolo.
Santa ingenuidade….
Em tempo * pra quem se arriscar a sentir as dores do mundo hj em dia.. .seria necessário uma super overdose de Soma…
30 de junho às 0:40
Bem interessante Carlos. Nietzche (se é assim que se escreve) tb profetizou a nossa admirável vida de gado já no final do séc 19. E como ele mesmo relatou no seu niilismo passivo, o perigo nao é a Vontade de Nada, que ainda é uma vontade, mas o preocupante Nada de Vontade !!! E pelo que ainda vemos, percebemos e sentimos a Cultura induz e premia o Nada de Vontade !Qto mais idiota, qto mais in-pensante ,ou seria des-pensante ?, mais anestesiante for a situaçao do meliante mais perto do milhão ele chega !!! Vide os B-B-B’s da vida !!!
Abs
RC
PS : Anote na sua agenda , e em breve no seu site ! Dias 09 e 10 de outubro vai rolar o Simpósio Nacional e Internacional de Astrologia do SINARJ. Teremos tb um pré-simpósio no dia 02/10 com uns astrólogos de fora e outros brazucas de primeira linha estudando as eleiçoes e no mapa do Brasil. Te mando o link assim que ficar pronto.
abs
30 de junho às 2:12
Maltz e mais uma dose de realidade! Parabéns amigo, vc narra a civilização que nasce com um olhar todo especial da civilização que morre. Consegue analisar a agonia de uma era e não perder o humor; consegue identificar os profetas da geração “cinza-metálica” como um soldado empunhalando sua espada. Mas é o futuro.. aaah o futuro, nada como esse futuro sombrio, superficial, amontoado e TENSO que nos espera… Ave Michel, “aauuuh”!
30 de junho às 12:32
Palavras não são capazes de resumir a complexidade de uma vida. Porém, acho que “fragilidade” cairia bem para sintetizar a existência de Michael Jackson.
O que, de fato, se passava na cabeça de MJ? Quais suas verdades, incertezas, medos, alegrias? O que realmente lhe era legítimo? O que, para ele, era só ilusão?
Como seria o Michael sem tanta pressão, sem holofotes, cirurgias plásticas, maquiagem, infância traumática, sem ditadores da beleza oprimindo sua natureza frágil?
É tolice a gente ficar dando corda à imaginação, se perguntando como seria alguém se não fosse como é, ou como foi? É, pode ser.
No entanto, são indagações que muitas pessoas, diante da “loucura” que foi a vida dessa criatura, se flagram fazendo.
Fato é que MJ deixou-se escravizar demais por sua persona.
Que o menino frágil e adulto “onipotente” possa estar bem. Que tenha a luz iluminando seu espírito, e paz onde quer que se encontre.
Gostei muito do seu texto, Carlos. Forte abraço!!!
1 de julho às 3:35
Neverland será posta à prova, assim como o castelo de cartas marcadas do jogo INWO “Illuminati New World Order”, de 1995…
Se até Fidel Castro, vide: http://www.provafinal.net/?p=654 deu seu alerta “SABER A VERDADE A TEMPO” podemos esperar um evento que deixará a Terra do Nunca, como nunca vista antes, infelizmete parece que vai ficar ainda pior!
…Tem que pagar pra ver
Tem que ver pra crer
Quem viver verá…
1 de julho às 18:43
Eu não vejo o futuro apenas apoiado nesse mesmo ponto de vista… Para mim o Pop tem relações com o Sagrado, por isso ele não poupa o Papa nem nínguem. Entendo a relação do Símbolo na morte de MJ em suas concomitâncias com o fato do Maltz ter saído dos Eng Haw… Mas Maltz você ainda é Pop, sua mente é Pop, sua escrita pós-moderna é Pop, nós que interessamos por vc e sua sabedoria é Pop tb. Então cara confesso que no poder do mito há uma falha na matrix, que podemos muito bem redimensiná-la. Abraços! Eu quero abilolar!! (Campanha Nacional para a compra do livro…)
1 de julho às 18:55
redimensioná-la (ato falho?)
10 de julho às 1:32
Já fazia um tempo que o Michael Jackson estava andando pra trás.
25 de julho às 11:25
Michael Jackson passou a vida toda querendo ser outra pessoa… não existe nada mais triste. Texto muito bom!!!!! Sou sua fã.
11 de agosto às 17:49
Uhaaaaaaaauuuuuuuuuuu!!!!!!!!!!!Na verdade eu nao gostei que o Michael Jackson morreu foi uma catastrofe,mas ja tinha passado o tempo dele faz tempo….Nao me comovi com a morte dele!!!Ele queria ser uma pessoa bem diferente do que ele e!!!
11 de agosto às 17:51
A crônica ficou demais;realmente o Michael sempre será o rei do pop!
11 de agosto às 17:55
Michael Jackson morreu mais era uma astro conçagrado ele sempre sera lembrado por todos
11 de agosto às 18:02
Na minha opinião o Michael Jackson se tornou a pessoa que ele era por opção e não por influência do pop!
11 de agosto às 18:07
Concordo que o mundo não é mas real tudo é superficial. Como alguém pode aguentar tantas quimicas em seu corpo quantos produtos .Acho que o talento de Michael Jackson é pelo seu talento e pela industria.parabéns pelo seu texto palavras escritas com sabedoria.
11 de agosto às 18:07
Michael Jackson foi um grande e ótimo dançarino e cantor,mas a sua mente não deixou ele ir mias longe,sua mente fez com que ele se tornasse um dos cantores mais polêmicos que o mundo ja viu. Pelo que eu já vi falando do grande astro do Pop mundial eu achei que a sua morte era uma coisa inventada,era mentira mas o tempo passou e hoje eu acredito e sei que é a mais pura verdade! Sucesso ele teve, dinheiro mais ainda,mas ele morreu deixando um mal exemplo para todos seus fãs, ele viveu querendo mudar a sua forma física e com isso deixou a perceber que ele foi uma pessoa preconceituosa com a cor negra. Mas nem por isso a sua estrela deixou de brilhar! Parabéns Carlos pelo seu texto!