São 23 horas do dia 21/12/2012. Daqui á uma hora, a Tsunami gigante virá e será o final de tudo. O fim do mundo tal qual o conhecemos…

Pensei muito antes de decidir de que maneira iria passar esses últimos momentos. Tinha a festinha do pessoal da repartição, que com certeza deve estar quentíssima… Imagine aquela loira do quinto andar… Ela é tão linda… E tão fácil… Mas comigo… Aquela frieza, aquela dureza…  Mas hoje, ah, hoje não, hoje ela ia olhar pra mim… Uai… O que ela tem a perder? Amanhã vamos ser todos, comida de Tubarão… Talvez ela até aceitasse ficar com um cara que nem eu… Um mané que nem eu… Diante do fim, que diferença faz se somos manés ou chefes? Feios, bonitos, ricos ou pobres?

Mas não, preferi não ir… Eu nunca soube o que fazer nessas festas, será que ia saber agora? Será que ia fazer alguma diferença para mim, ser a última festa? Acho que não, acho que eu ia ficar lá parado num canto com a mesma cara de mané de sempre… E isso seria o fim… – Olha que mané, nem na festa do fim do mundo, o cara conseguiu pegar alguém… Ridículo…

Preferi ficar aqui, com o meu cachorro e o meu computador, que, no frigir dos ovos, é o que posso dizer que possuo neste mundo… Enfim…

Estão fazendo contagem regressiva na Internet… Será que vai ter fogos? Show do Roberto?

Pensei também em fazer algo mais íntimo, convidar alguns amigos… Mas… Que amigos? Só converso mesmo com o pessoal da repartição, e eles estão todos lá na festa…

Optei por algo mais espiritual, uma meditação, uma revisão de minha vida… Ficar orando… Até tentei, mas durou pouco… Uns cinco minutos… E eu achei a coisa toda ridícula demais… Nem o fim do mundo me deixou menos crítico… Soturno…

Tentei até me desesperar, gritar pela janela, me jogar pela janela… Tomar uma overdose de remédios, que nem a menina da telefonia…  Sem chance… Meu senso de ridículo não me permitiria algo tão histriônico… Nem covarde eu consigo ser… Uai…

Portanto vamos ficar aqui, nós três, eu, o cachorro e o computador, esperando o fim… Em silêncio, sem nenhum heroísmo ou algo muito ridículo… Como sempre tem sido…

Toca a campainha. Quem será? Não vem ninguém aqui há meses… Uai… Quem será? A última conta de luz? A derradeira pizza, por engano?

No olho mágico da porta vejo o rosto da moça do apartamento da frente. Seus olhos estão vermelhos. Ela está assustada… Abro a porta.

Ela está soluçando, não consegue falar direito: po… posso ficar aqui com o senhor?

- Uai, pode… Eu digo… Mas… O que houve com você, moça?

- O senhor não sabe? O mundo vai acabar, daqui á uma hora…

- Cinqüenta minutos…

- Pois é, cinqüenta minutos… E o senhor está aí com essa cara… Me desculpe mas…

- E que cara a senhora queria que eu estivesse?

- Que cara? Sei lá, cara de alguma coisa qualquer… Desespero, dor, ódio, sei lá… O senhor não está sentindo nada?

Fiquei com vergonha de dizer que não…

- O SENHOR NÃO ESTÁ SENTINDO NADA?

- Não senhora…

- Mas, mas… Isso não é possível… É imoral… É o fim do mundo, o senhor não percebe? O senhor não tem filhos, pessoas de quem o senhor gosta, pessoas que gostam do senhor?

- Tenho filhos sim, moça, mas eles não gostam muito de mim, não…

- Não gostam do senhor? Por quê?

- Ah, é quando eu me separei da mãe deles…

- O que aconteceu?

- Eu fui me embora…

- E depois?

- Eu nunca mais apareci na vida deles…

- O senhor foi embora, e nunca mais apareceu? Nunca mais viu os seus filhos? Por quê?

- Não sei direito não, moça… Me mudei pra cá, arrumei o emprego na repartição… E fui ficando por aqui, aqui dentro…

- O senhor foi ficando aqui, dentro desse apartamento, e nunca mais viu os seus filhos?

- É, moça…

- Mas o senhor não sente nada, saudade, culpa? Nunca ligou para eles?

- Não… Nunca… Nada…

- Não acredito… O senhor não está desesperado porque nunca mais vai ver os seus filhos?

- Não, moça…

- Mas… Mas…

- Mas o quê?

- Não sei o que dizer…

- Não diga nada, uai… É tão fácil ficar calado…

- O senhor está me irritando profundamente…

- E por que, moça?

- Não sei, só sei que estou com vontade de gritar…

- E grite, uai… Acho que no último dia da humanidade, a gente pode gritar depois das 22 horas… Se bem que tem o horário de verão, e a síndica do prédio é durona,a senhora sabe…

- CALA ESSA BOCA!

- Desculpe, moça…

- Não, não precisa se desculpar, eu é que preciso, eu é que estou aqui na sua porta… Ahhh, eu não tô legal, o senhor me desculpe… Eu vou indo…

- Não, não, quer dizer… a senhora quer entrar?

- NÃO! Quer dizer, sim, quer dizer… Acho que não sei… AHHHHHHHHH EU NÃO AGUENTO MAIS ENTENDEU? EU NÃO AGUENTO!

- Calma moça…

- Calma é o escambau… O mundo vai acabar daqui á meia hora e o senhor quer que eu fique calma?

- Vinte minutos…

- O quê?

- O mundo vai acabar daqui á vinte minutos… Dezenove…

- AHHH, eu não agüento isso… Me abrace, por favor, eu não agüento isso, não agüento estar sozinha nessa hora… Me abrace, por favor… Diga alguma coisa, alguma coisa inteligente… O mundo ai acabar assim, sem nada… O mundo vai acabar e eu aqui parada nessa porta, tendo essa conversa idiota…

- Mas e o seu namorado, moça? Onde ele está?

- Eu não tenho namorado…

- Mas e aquele rapaz que vem sempre…

- Ele não é mais meu namorado…

- Vixe! Não? Mas eu vi ele, por aqui, ontem…

- Agora a gente tá só ficando…

- Ficando?

- É… Ele fica comigo nas quartas. Nas terças e quintas ele tem uma namorada… Um lance dele, mais espiritual…

- E nas sextas?

- Nas sextas, ele tem um rolo com uma outra pessoa…  Ela é casada… O marido viaja nas sextas… Mas a parada é só sexual mesmo…

- Ahhh bom… Não… não… Quer dizer… Puxa, que azar… Bem que o mundo podia ter acabado numa quarta, né, aí a senhora podia passar esse momento tão importante ao lado dele, né? Fim do mundo é mais importante do que final de copa do mundo… acho…

- É… Ahhhhhhhh… Ahhhhhhhh… Ahhhhhhhhh…

- Calma moça, calma… A senhora está passando mal? A senhora está sofrendo muito com essa estória dele ter outras mulheres?

- Não, não… NÃO!  Não é nada disso…  Você é muito bronco, mesmo, muito primitivo… Não entende nada… Hoje em dia é assim mesmo… Eu posso compreender a necessidade dele de ter outros relacionamentos, de aproveitar ao máximo o que a vida pode proporcionar a ele… E eu tô meio caidona, sabe? Nós até fazíamos parte de um grupo de gente que não consegue se limitar por essa moral antiquada… Essa coisa de ter uma pessoa só, só um amor… Não, não é isso meeeesmoooo…  Essas coisas pequeno-burguesas… Não, não… Mas o senhor não vai entender…

- Entendo… Quer dizer… não… sei…

- Entende? Entende nada…  É horrível terminar assim… de um jeito tão idiota… Eu até ia encontrar com umas pessoas pra gente passar o fim juntos… pessoas importantes, inteligentes… Mas aí eu peguei no sono e só acordei agora… AHHHHHHHHHHHHH… NÃO, NÃO…

- Entendo… Bom… Pelo menos a senhora tem ele… quer dizer… tinha… bom…  nas quartas… né? Se desse a sorte do mundo acabar numa quarta…

- Você pode fazer o favor de calar essa boca e me abraçar?

- Pois não, moça…

- AHHHHH, OLHA! OLHA!

- Olha o que, moça?

- Olha o relógio, a gente ficou conversando e não viu o tempo passar, faltam dois minutos, me abraça, por favor, me abraça forte… AHHHHHHHHHHH!  O que foi isso?

- Isso o que, moça?

- Isso, O que aconteceu? Aconteceu? Já passamos da meia-noite…  Você ouviu algum barulho? Será que a gente morreu e não viu? Será que estamos vivos? Ainda estamos no mundo? O que aconteceu? Estamos no além? Na quinta dimensão? Viramos luz?

- Acho que não aconteceu nada não, moça…

- O QUÊ?

- Nadica de nada, moça…

- Ahhhh não, não acredito… Não acredito… O mundo não acabou!!! O mundo não acabou… O mundo não acabou… Não pode ser, o mundo não acabou… O MUNDO NÃO ACABOU! AAHHHHHHHHHHH! Não aconteceu nada? Não vai acontecer nada? NÃO VAI ACONTECER NADA, PÔ?

- Calma moça, calma… Pode ser o horário de verão…