Sai do consultório, e como sempre faço, passei na banca de revistas para ver as manchetes dos principais jornais do país, um velho hábito que a Internet não comeu.

Gosto de vê-los assim, lado a lado. Comparo as notícias que foram escolhidas para serem os carros-chefes, a maneira como foram veiculadas, o tamanho e a importância que cada editor deu a cada notícia, enfim…

Naquele dia todos eram unânimes: MARINA SILVA É CANDIDATA Á PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA! Todos, sem exceção, deram a mesma manchete. Isto não é algo que se vê todo dia… Peixe grande á vista!

Ao meu lado, na banca, um cara um pouco mais velho do que eu também lê as manchetes. Está agitado, ansioso, doido prá falar com alguém… Olha pra mim e diz: – É, quero ver esses caras governarem, quero ver eles fazerem do jeito que estão dizendo que vão fazer… Percebo o tom da conversa e digo: – Pois é, santo só tem no céu… Ele esboça um sorriso de alívio e empatia… Mas eu emendo: – mas aqui na terra, devagarinho, as coisas vão caminhando pra frente também, né?  Seu rosto fechou. O esboço de sorriso sumiu e deu lugar a uma expressão levemente amarga, uma expressão fraca de ressentimento e cinismo… Não disse mais nada e saiu.

Não sou conhecedor do mundo da política. Entendo tanto do assunto, quanto entendo de futebol. Ou seja: NADA. A política me interessa enquanto fenômeno de massas. Assim como a Gustave Le Bon, me interessa a Psicologia das massas. Como se movem as águas da emoção nos corações e mentes das multidões. Política fala de símbolo, sonho. Há muito tempo que o candidato que vence a eleição não é necessariamente o melhor político, ou administrador público, mas sim aquele que tem os melhores profissionais de marketing. Há muito tempo que as pessoas estão votando naquele que consegue traduzir melhor os seus sonhos e anseios. Naquele que lhes vende melhor o que elas estão querendo ouvir naquele momento. Mesmo que ás vezes, não saibam que aquilo que estão ouvindo, e que está tocando tanto em seus corações e mentes, é exatamente aquilo que estavam prontas para ouvir e não sabiam.

Quanto mais um candidato tem o dom de ser a voz do que anda no inconsciente coletivo de uma época e um povo, maior o seu poder de sedução e carisma naquele lugar e momento. Seja ele homem, mulher, branco, preto, jovem, velho… Este é o caso de Lula, Hugo Chávez, Juan Domingos e Eva Perón, Fidel Castro e Che Guevara, John Kennedy, Barak Obama, Lênin e Trotsky, Mao Tsé Tung, Getúlio Vargas, Winston Churchill, Charles De Gaulle, Fernando Collor, Adolf Hitler…

Independente de julgamentos e comparações, todos estes nomes, em algum momento e lugar, foram a imagem viva do que andava no inconsciente das pessoas daquele lugar e tempo. E se tornaram símbolos de alguma coisa. Alguns até se tornaram mitos, que já é uma categoria acima do símbolo. Um mega-símbolo que se eterniza. O sonho de consumo do Lula neste momento: mitificar-se e entrar para o hall dos imortais… Mitos nunca morrem… Símbolos têm muito poder sobre os corações e mentes das pessoas. Símbolos sintetizam. Simbolizam o indizível. Não é fácil vencer uma eleição, quando se está competindo com um símbolo. As pessoas não decidem com a razão, decidem com a alma. E está, é imprevisível. A alma ama o símbolo, por que só o símbolo entende os seus anseios. Só o símbolo fala á alma.

No ano que vem, teremos uma oportunidade incrível de assistir, assim na terra como no céu, um encontro astrológico entre dois gigantes. Lá em cima, Saturno e Urano estarão frente a frente, em um “aspecto astrológico” conhecido como: oposição. A oposição é um aspecto tenso. Dois princípios opostos, num embate aberto, em busca de um equilíbrio que possa unificar a cisão. Saturno representa o velho, aquilo que está confirmado e consagrado pelo tempo, e Urano o novo, aquilo que ainda não é, mas que se impõe com uma força irresistível e indomável. A força do novo tempo, inevitável. Ou seja: um embate violento entre o que é e o que será.

Aqui embaixo, na terrinha, teremos uma eleição presidencial que vai colocar provavelmente frente á frente, os representantes dos dois princípios que no céu se enfrentam em busca de harmonia.

Marina Silva será a representante de Urano. Serra e Dilma, os de Saturno.  Por isso a candidatura Marina causa impacto e temor nos adversários, apesar do pouco capital político que ela dispõe no momento. Marina representa o novo, o sonho, a utopia uraniana.  Tal qual Barak Obama foi também o seu representante na eleição que ganhou de “lavada” do representante saturnino, no ano passado. Mas não pensem que o novo é o fato dele ser negro, ou mesmo ter um nome árabe, se bem que estas características o teriam inviabilizado em um momento menos uraniano. Marina também não representa o novo porque seja negra ou mulher.

O novo, que estas pessoas representam, neste momento, é a volta da alma ao cenário político. Marina e Obama são pessoas, e não apenas personagens. Eles têm alma, seguem preceitos éticos. Tem sentimentos.  Estão na política há algum tempo e não venderam as suas almas. Não ficaram milionários, não participam de escândalos. Não traíram seus companheiros por dinheiro ou poder. Cumprimentam as pessoas. São respeitados e amados por aqueles que os conhecem pessoalmente e convivem com eles, e não apenas pelos seus fãs.  Não se transformaram nas suas próprias sombras.  Estão presentes, são de carne e osso, tem família, marido, mulher, filhos que eles criam. Amigos que os consideram amigos. Tem religião. De verdade. Não são apenas “homens-públicos”. São seres humanos. Este é o novo: seres humanos na vida pública.

O novo é melhor ou pior do que o velho? O novo é simplesmente novo. Inevitável. O caminho impassível da evolução. Como dizia uma velha canção: o novo sempre vem.

Mas não pensem que Saturno vai entregar a rapadura facilmente. Ele vai jogar duro. E Saturno sabe jogar duro, coisa que Urano desconhece, pois é um tanto quanto ingênuo. É novo, ainda. Saturno é ultra-realista, maquiavélico. Vai usar todas as suas armas, a sua inteligência fria, calculista, cínica e corrosiva. Vai pesquisar cada centímetro da vida de Urano para provar que ele também é corrompido e que sua conversa é infantil e ingênua. Enfim… O velho… Com seus velhos, pragmáticos e eficientes hábitos.

Quem vencerá o embate? Como saber? Estaremos prontos para o novo? Queremos mesmo o novo? Será o novo, inevitável? Só o tempo vai responder com certeza… Mas uma coisa é certa, a oposição se resolve quando o dois aspectos opostos encontram alguma forma de harmonia… Um tem um tanto de coisas para aprender com o outro. O velho e o Novo são dois Arquétipos, e um não vive sem o outro… Santo mesmo, só tem no céu, mas aqui na Terra, devagarinho, as coisas vão caminhando para frente…