Uma notícia lida na semana passada em um site de uma revista me deixou pensando: o Rivotril, remédio “tarja-preta”, usado como controlador de ansiedade, para pessoas que têm dificuldade em controlar esse tipo de processo, é o segundo remédio mais vendido do Brasil, perdendo apenas para uma “pílula do dia seguinte” e ficando na frente de campeões como o Tylenol e o Caladryl.

Das duas uma: ou a quantidade de gente que não controla a sua ansiedade está chegando a uma escala mega-maracanã, ou há algum fenômeno novo emergindo nas sombras deste sintoma.

Pode-se pensar também em uma terceira alternativa, que seria a junção das duas anteriores.

No célebre (bem mais célebre do que lido) “Admirável Mundo Novo”, de 1932, o escritor inglês, Aldous Huxley, com talento literário e visionário ímpar, descreve uma sociedade do futuro onde um governo mundial com características hibridas, capitalistas e socialistas, garante uma sociedade mecânica e despersonalizada. O indivíduo está totalmente á salvo dos sentimentos, especialmente do sofrimento. A Psicologia Cognitivo-Comportamental foi elevada á categoria de “Engenharia Psicológica”, o cidadão é programado para estar satisfeito com o mundo em que vive. O sexo é liberado e desconectado do amor. Todos são de todos e ninguém é de ninguém, e pega muito mal alguém se apegar a alguém. O corpo humano não envelhece até pouco antes da morte e qualquer leve lampejo de dor psíquica ou moral é diluído pela “droga perfeita”, o SOMA que leva o indivíduo imediatamente para um paraíso neuro-químico artificial. Todos têm os seus bens de consumo apropriados para a classe social a que pertencem, e como são condicionados desde a fecundação “in-vitro” (a gestação foi abolida) a aceitarem a classe a que pertencem, ninguém deseja pertencer a uma classe diferente. A classe já vem determinada no DNA, por um processo de Engenharia Genética. Ninguém tem pai, mãe ou família, todos são filhos da engrenagem. Ninguém precisa cuidar de ninguém, a engrenagem cuida de todos. Ninguém precisa pensar em nada, a engrenagem pensa por todos. Jesus e sua cruz foram substituídos por FORD, o autor da engrenagem. Um Deus automático, sem pecado e sem dor. Viver significa consumir e ser “feliz”.

Ora, qualquer um com um mínimo de percepção e informação pode reconhecer nesta descrição, algo muito parecido com o nosso atual sonho coletivo de consumo, que já vem há tempos sendo anunciado e comentado por autores como Guy Debord, na sociedade do espetáculo, Zygmunt Bauman na pós-modernidade líquida e Giles Lipovetsky na era do vazio.

Outro autor, um pouco mais antigo, o biólogo Konrad Lorenz, já na década de setenta do século passado chamava a atenção para a utilização do rolo compressor do condicionamento mental pela publicidade estatal da engrenagem comunista e pelos nossos maiores “gênios” contemporâneos: os publicitários á serviço da engrenagem capitalista. Lorenz denunciava e mostrava as conseqüências que ele traria: (LORENZ, Konrad; Civilização e Pecado; Circulo do Livro, São Paulo, 1975.)

Os homens no poder, na América, China ou União Soviética, são hoje unânimes em achar extremamente interessante a ilimitada capacidade de condicionamento do homem. Sua fé na doutrina pseudodemocrática é sustentada pelo desejo de que seja verdadeira. Pois esses manipuladores não são absolutamente super-homens dotados de uma inteligência satânica, mas antes, vítimas bem humanas de seu próprio dogma desumano. Segundo essa doutrina, tudo o que é específicamente humano parece indesejável, e todos os fenômenos capazes de degradar a humanidade, parecem extremamente vantajosos, pois permitem uma maior manipulação das massas. “MALDITO SEJA O INDIVÍDUO”, eis a palavra de ordem. Tanto o magnata da produção capitalista quanto o funcionário soviético querem ter os meios de condicionar os homens e transformá-los em seres subordinados, uniformizados, perfeitamente submissos, semelhantes aos que ALDOUS HUXLEY pintou em seu aterrorizante romance AMIRÁVEL MUNDO NOVO. A falsa certeza de que podemos fazer e exigir tudo do homem submetido a um bom condicionamento gera numerosos pecados mortais que a humanidade civilizada comete, não só contra a natureza em geral, mas contra sua natureza específica e contra o humanismo. Quando uma ideologia mundial e a política dela resultante são fundamentadas na mentira, devem-se esperar os piores resultados. A doutrina pseudodemocrática é grandemente responsável pelo desmoronamento da cultura e da moral que ameaça os Estados Unidos e que arrisca arrastar na queda, todo o mundo ocidental.

É interessante a utilização da palavra “queda” pelo autor.

Queda é a tradução literal do que a palavra SINTOMA quer dizer. Sintoma significa QUEDA. Algo caiu do plano psíquico para o plano visível, o SOMA, no caso, não a “droga perfeita” do mundo da felicidade-sem-fim de Huxley, mas o corpo físico no caso do indivíduo, e o corpo social, no caso de uma sociedade. Sintoma é sinal. SOMA é uma palavra grega que significa: corpo. Um aviso. Como aquelas luzinhas vermelhas que acendem no painel do carro, quando algo está errado no motor.

Ora, termos um psico-fármaco-tarja-preta, usado para conter ansiedade, como o segundo remédio mais vendido no país, mesmo levando em conta que ele também é utilizado juntamente com o álcool, para “dar barato”, é algo que precisa nos fazer pensar.

Que sintoma social é esse?

O que esse grito está querendo nos dizer?

Por que estamos tão ansiosos?

A ansiedade, segundo os autores existencialistas, que foram os que mais se dedicaram ao seu estudo, vem na continuação direta daquilo que eles chamam de ANGÚSTIA. É aperto. Ansiedade é conseqüência da angústia. Aperto no peito. Angina. Vem do alemão “ANGST” que significa: VAZIO. Segundo alguns autores, a angustia faz parte da condição humana, é inerente. Mas, cada coisa tem o seu tamanho e lugar. Os problemas geralmente estão associados ás quantidades e aos desequilibrios. Angustia é uma coisa. Pandemia de angústia é outra.

Que vazio é esse que o Rivotril vem nos revelar?

Onde foi que pegamos a trilha errada?

Como fazemos para voltar?

O que é capaz de preencher este vazio?

Será que nossa geração vai encontrar as respostas?

Ou vamos deixar para os nossos filhos?