Sob o Signo da Capital
Artigo publicado na Revista do Correio, em edição de 25/01/2009. ano 4, número 193
Brasília acolhe alguns dos mais importantes conselheiros espirituais do país, além, claro, de um grupo mais alternativo. Da astrologia ao tarô, saiba quem é quem na hora de buscar o autoconhecimento.
Anunciada em sonhos e premonições, Brasília carrega consigo um misticismo de tamanho e beleza proporcionais ao céu que a cobre. Místicos garantem: essa é a dita terra prometida e, por esse motivo, tantas crenças diferentes por aqui nascem ou se acomodam . Os filhos da cidade também carregam um forte gosto pelo sagrado. Não é à toa que buscam tanto o apoio de conselheiros espirituais para determinar novas metas, ou até mesmo para mergulhar no autoconhecimento.
Doutor em filosofia da religião pela Universidade de Londres, Agnaldo Portugal, professor da Universidade de Brasília (UnB), vê ciência por trás dessa característica. Com raízes culturais ainda bem incipientes, o brasiliense se permite experimentar as mais variadas crenças – até mesmo aqueles que já seguem um religião determinada.
“O alto grau de instrução também ajuda nessa liberdade. Grande parte declara-se ’sem religião’, mas na realidade alimenta um conjunto pessoal de crenças”, explica Portugal. A superstição e a atração pelo mágico, naturais do povo brasileiro, tem por aqui um terreno fértil. “Surge uma abertura para ser católico, mas também aconselhar-se com um pai-de-santo de candomblé e tomar um passe no centro espírita”, exemplifica o professor.
Mas qual seria o perfil dos grandes conselheiros espirituais de Brasília? A revista ouviu pessoas influentes na cidade para descobrir quem são os mais badalados do momento. Alguns, como Raul de Xangô, se mantém na lista dos mais procurados após décadas de atendimento com búzios e tarô. Outros, como o astrólogo Carlos Maltz, cresceram nos últimos anos por oferecerem um serviço diferenciado. Além de fugirem do título de guru e de se negarem a comentar sobre os clientes importantes, eles carregam outra crença em comum: sentem-se predestinados a viver em Brasília e, aqui, ajudar pessoas a encontrar o sentido em outras coisas além do material.
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A birra natural de um escorpiano fez com que Carlos Maltz, 46 anos, se interessasse por astrologia, na década de 1990. Ele ainda era baterista da banda Engenheiros do Hawaii e, de olho em uma garota, resolveu estudar a relação dos planetas com os homens para impressioná-la. No entanto, o lado científico que descobriu nos livros fez com que se apaixonasse pelas estrelas. “Era minha diversão durante as viagens coma banda. Passava o dia inteiro lendo sobre o tema.”
Ao sair do grupo, em 1995, e arriscar a carreira com outras bandas, a astrologia surgiu como uma oportunidade profissional. Em 1999, veio visitar amigos em Brasília e, na ocasião, olhou para cima de uma forma diferente. “Foi o céu quem me chamou. Era impossível ser astrólogo e não estar tão próximo dele, como a cidade proporciona”.
Maltz desenvolveu um método pessoal de atendimento, focado na análise da psique do cliente. Não gosta muito de previsões. “Favoreço um olhar para a realidade, mostra às pessoas como elas são”, explica. Algumas vezes, de forma contundente. “Ainda fico espantado com o fato de ter conseguido crescer na carreira. Muitos saem me odiando, mas voltam ao perceberem que a bronca é para o bem”, brinca. A natureza do trabalho acaba selecionando a clientela entre pessoas de maior nível cultural. “O lado científico diminui a barreira, especialmente entre os céticos”, avalia. Mas nem isso o livra dos fanáticos de plantão. “Há quem chegue aqui para comprovar que são seres iluminados, ou que estão com um lugar garantido no céu”, conta.





















