DOIS

Tenho amigos estranhos. Que cultivam hábitos estranhos. Um deles adora números. Bem, não exatamente apenas números, mas histórias com números. Relações. Relações numéricas bizarras. Histórias que envolvem associações aparentemente absurdas com números. Este é o seu hobby…  Ele me manda números…

E eu, o que faço com esses números? Na maioria das vezes, nada… E ele também não me pede nada… Apenas me manda aquelas histórias com aqueles números, por e-mail, e ponto. Nunca disse uma palavra além do relato jornalístico (detalhadíssimo), e nas raras vezes em que nos encontramos pessoalmente, ele nem sequer mencionou o assunto.

Respeito a sua natureza racional e calada. Na verdade, sinto uma secreta atração por aquelas histórias, aquelas métricas, que finjo para mim mesmo, desdenhar. Prefiro não falar nada, pois temo que se eu disser algo, ele pare de mandar. Pessoa ímpar… E eu, na verdade, também tenho um meu estranho hobby: encontrar relações, conexões entre fatos, acontecimentos, imagens aparentemente sem conexão nenhuma entre si…

Ficamos, pois, assim, nesse diálogo de Babel: ele procurando nos números, no lado esquerdo do cérebro, a resposta matemática que silencie suas questões internas sobre o sentido da existência, ou a falta dele. E eu, buscando no lado direito, conexões intuitivas, sincrônicas que respondam a mesma pergunta…

Na semana passada, a notícia que ele me mandou era realmente fora do comum. Á princípio, não me chamou muita atenção, pois o título do e-mail parecia ser algo relacionado aos esportes, e eu não tenho o menor interesse em dados esportivos, tipo quantas vezes o Grêmio foi campeão em anos pares, ou coisas do gênero.

Mas algo indizível mandou, e eu abri a mensagem… O que ela dizia?

Um jogador alemão, Robert Enke, goleiro do Hannover e da seleção alemã, havia se jogado diante de um trem á 150 km por hora, num entroncamento ferroviário que ficava á aproximadamente dois quilômetros do local, onde sua filha de dois anos de idade, que havia falecido de alguma doença congênita, fora enterrada há mais ou menos dois anos atrás… Dois mil torcedores haviam passado a noite em vigília, dizia a mensagem. O último jogo que o cara jogou havia terminado empatado em 2X2…

No dia anterior, o jogador havia treinado normalmente, e á noite, foi com sua esposa, á uma exposição de arte feita com cadáveres humanos reais… Há meses, Enke vinha apresentando problemas com uma estranha “inflamação” que o afastava, ás vezes, de jogos e treinos.

Fiquei pasmo. E inquieto. Minha antena me sussurrava algo… O quê aquela tragédia toda tinha a ver com o número dois? Qual o recado que a vida estava me mandando com aquele triste acontecimento e aquela macabra simetria?

Vi algumas imagens na NET. A maioria, fotos oficiais de Enke como goleiro de diversos times europeus, e da seleção de seu país. Ser o goleiro da seleção alemã de futebol não é pouca coisa. Vem-me á cabeça, a imagem do gigante Sepp Maier, que fechou o gol e foi fundamental para a vitória daquele país em 1974. Não acompanho atentamente os rumos do esporte bretão, mas sei que outros grandes nomes já passaram por aquela posição, e sei também que não mais do que três goleiros de cada geração podem conhecer a honra e a glória de serviram á seleção de seu país.

Nas fotos, Enke aparecia com o sorriso e a empáfia dos vencedores. Um “winner”, como costumam dizer nossos irmãos do norte. Careca, durão. Um cara “hard”. O último homem, a última instância do “Deutsche Team”… Deus me livre de ser o jogador que tivesse que bater um último penal para o Brasil numa final de copa do mundo, com um cara daqueles pela frente…

Mas o que poderia ter acontecido, com um cara daqueles, para ele chegar ao extremo em que chegou?

Sim, havia a história da filha, e o fato do suicídio ter ocorrido á dois quilômetros do local onde a menina estava enterrada pode ser um sinal de que aquela ferida jamais havia cicatrizado no coração do pai, por mais durão que ele fosse…

Depois do ocorrido, a esposa do jogador comunicou a imprensa, que Robert Enke sofria de depressão, e tinha medo de que, se essa notícia vazasse, ele pudesse perder o seu tão almejado posto de goleiro da tricampeã mundial de futebol… E havia aquela exposição de arte com cadáveres reais… Arte? Que lugarzinho para uma pessoa depressiva estar passeando, hein?

Sai para caminhar um pouco e mudar o disco em minha mente, pois não conseguia pensar em outra coisa…

Na esquina, na banca de jornal, vejo na capa de uma dessas revistas de “vida saudável”, uma loira com pose de “winner” e a seguinte manchete: Ela perdeu doze quilos, virou loira e agora é outra mulher…

Outra mulher? Huuummmm…

Voltei para casa. Meu amigo cartesiano havia me mandado outra mensagem. Agora era apenas uma foto. Dois torcedores do Hannover abraçados, em vigília pela morte do ídolo querido.  Cada um dos dois usava uma camisa do Enke, com o nome do goleiro e o número um. Estavam de costas para o fotógrafo.

Plim, plim… Haviam dois Robert Enkes… O cara “durão” das fotografias, e outro, muito ferido emocionalmente. Um cara sensível que se abalou profundamente com a perda da filha, e não estava suportando a idéia de perder a sua imagem pública…

Mas… Seria a imagem pública tão importante assim, ao ponto de Enke preferir perder a vida a perdê-la?

Como isto é possível?

C.G. Jung, profundo conhecedor da mente e da alma humanas já falava, em meados do século passado, sobre a existência em nós, de algo que ele chamava de “persona” (SHARP, Daryl; Léxico Junguiano; Editora Cultrix, São Paulo, 1997)

Ela é, como o nome indica, apenas uma máscara da psique coletiva, uma máscara que finge individualidade, fazendo com nós e os outros acreditemos que somos indivíduos, embora estejamos, simplesmente, desempenhando um papel através do qual a psique coletiva se exprime. Quando analisamos a persona, despimos a máscara e descobrimos que aquilo que parecia ser individual é, no fundo, coletivo; em outras palavras, que a persona era apenas uma máscara da psique coletiva. Fundamentalmente a persona nada tem de real: não passa de um acordo entre o indivíduo e a sociedade sobre aquilo que um homem deveria parecer ser. Ele adota um nome, ganha um título, desempenha uma função , é isto ou aquilo. Em certo sentido tudo isto é real; contudo em relação á individualidade essencial de uma determinada pessoa, é apenas uma realidade secundária, uma formação de compromisso, fato no qual as demais pessoas muitas vezes têm uma parte maior do que a própria pessoa.  Ninguém pode, impunemente, desembaraçar-se de si mesmo em troca de uma personalidade artificial; até a tentativa de fazê-lo acarreta, nos casos comuns, reações inconscientes, sob forma de mau-humor, afetos, fobias, idéias obsessivas, vícios reincidentes, etc. O “homem forte” social, em sua vida privada, freqüentemente não passa de uma simples criança, no que diz respeito a seus próprios estados de sentimento. As exigências de adequação e de boas maneiras são um incentivo adicional a que se assuma uma máscara condizente. O que acontece, então, por detrás da máscara recebe o nome de “vida privada”. Esta dolorosa divisão familiar da consciência em duas figuras, muitas vezes absurdamente diferentes, é uma penetrante operação psicológica, fadada a ter repercussões no inconsciente.

Não há nada de errado com a persona. Ela é uma espécie de máscara social que todos temos e precisamos ter, para podermos nos adaptar e sobreviver ás pressões e aos atritos entre aquilo que verdadeiramente somos, e aquilo que a sociedade espera que sejamos… Ou que nós esperamos que ela espere de nós…

Ninguém sobreviveria á vida na terra sem a persona. Até mesmo os monges mais desapegados também têm apego… Á sua imagem pública de monges desapegados…

Na Índia, país considerado por nós ocidentais sem religião, como o supra-sumo de tudo que é espiritual, até hoje existem monges que não se sentam á mesa com pessoas de castas inferiores, para que isto não venha denegrir suas imagens públicas…

No episódio em que Jesus se encontra com uma samaritana á beira de um poço e lhe pede água, a mulher se surpreende por EL’e, um judeu, estar se dirigindo a ela, uma pessoa inferior. Sem saber que se tratava de alguém que estava á milhas e milhas e milhas de distância das convenções sociais da época, ela O adverte sobre os prejuízos que EL’e poderia sofrer em sua imagem pública por aquele ato “impensado”.

O problema começa quando esquecemos que somos pessoa, e passamos a nos identificar totalmente com a persona, o personagem, esta imagem pública vista por nós, no espelho que é o olhar do outro.

Vamos voltar á capa da revista de “vida saudável”: Ela perdeu doze quilos, virou loira e agora é outra mulher… Ou seja, ao transformar a sua imagem, ela passa a ser outra pessoa. A outra, a numero dois… E a número um? Continua lá, com todas as suas angústias, dores e fraquezas. Continua lá com toda a ansiedade que a levou a ficar doze quilos acima do seu peso natural. Continua lá. Subsistindo em uma região imediatamente abaixo da superfície fina da personalidade numero dois, que é a persona. Subsistindo sub-nutrida e abandonada. Carente, sedenta de atenção e amor. Continua exatamente lá. Exatamente do mesmo jeito que sempre esteve. Exatamente do jeito que a gente a deixou… Aguardando uma vacilação da “poderosa” numero dois, para mostrar a sua verdadeira face de fraqueza e desespero…

E quantos de nós, perdidos nesse mundo sem alma, identificados com esse mundo sem alma, tentando sobreviver nesse mundo sem alma, também não perdemos nossa conexão com nossa própria alma, e esquecidos de quem verdadeiramente somos, também nos identificamos com uma imagem qualquer, á ponto de acreditarmos que sem ela, é preferível a morte?

Quantos de nós trocamos a nossa alma por uma ilusão qualquer? Quantos de nós vestimos uma roupa qualquer, uma fantasia qualquer, e passamos a acreditar que somos o personagem, e que sem ele não somos nada, que sem ele não vale a pena viver?

Artista, ator, político, chefe… Rico, poderoso… Pobre, revoltado… Permissivo, doidão, durão…  Médico, psicólogo, astrólogo… Gostosona do momento, santo, pessoa espiritualmente evoluída… Branco, preto, japonês, árabe, índio, mulata, judeu… Qual é a sua máscara? Quem é você?

Quantos de nós somos também como bolhas de sabão, que brilham ao sol, mas que não resistem ao mais leve contato com a realidade?

O que somos nós, quem somos nós, o que estamos fazendo por aqui? Perguntas simples, que alguns consideram simplórias, mas, provavelmente, as mais importantes de todas.

O filósofo existencialista Albert Camus, considerava o suicídio, a única questão que realmente valia a pena ser discutida.

Discutir o suicídio é discutir a própria vida, o sentido e a graça que estão implícitos nesta questão.

Enquanto continuarmos adormecidos de nós mesmos, enquanto continuarmos sendo crentes desta “religião” materialista que domina o mundo e nossas mentes atualmente, e que nos ensina que somos coisa, continuaremos cegos para o sentido maior de nossas existências, e sujeitos a nos identificarmos completamente com os personagens que representamos.

A vida é muito mais do que isto, nós somos muito mais do que as nossas máscaras… E ás vezes, é só quando as perdemos, é que podemos nos encontrar de verdade…

Meu amigo pitagórico, agora me manda mais um e-mail sobre aquele dia fatídico: faziam dois dias, da grande comemoração dos vinte anos da derrubada do muro… Que desde o final da segunda grande guerra dividia o território e o coração do povo alemão… Em dois…

HORÁRIO DE VERÃO

São 23 horas do dia 21/12/2012. Daqui á uma hora, a Tsunami gigante virá e será o final de tudo. O fim do mundo tal qual o conhecemos…

Pensei muito antes de decidir de que maneira iria passar esses últimos momentos. Tinha a festinha do pessoal da repartição, que com certeza deve estar quentíssima… Imagine aquela loira do quinto andar… Ela é tão linda… E tão fácil… Mas comigo… Aquela frieza, aquela dureza…  Mas hoje, ah, hoje não, hoje ela ia olhar pra mim… Uai… O que ela tem a perder? Amanhã vamos ser todos, comida de Tubarão… Talvez ela até aceitasse ficar com um cara que nem eu… Um mané que nem eu… Diante do fim, que diferença faz se somos manés ou chefes? Feios, bonitos, ricos ou pobres?

Mas não, preferi não ir… Eu nunca soube o que fazer nessas festas, será que ia saber agora? Será que ia fazer alguma diferença para mim, ser a última festa? Acho que não, acho que eu ia ficar lá parado num canto com a mesma cara de mané de sempre… E isso seria o fim… – Olha que mané, nem na festa do fim do mundo, o cara conseguiu pegar alguém… Ridículo…

Preferi ficar aqui, com o meu cachorro e o meu computador, que, no frigir dos ovos, é o que posso dizer que possuo neste mundo… Enfim…

Estão fazendo contagem regressiva na Internet… Será que vai ter fogos? Show do Roberto?

Pensei também em fazer algo mais íntimo, convidar alguns amigos… Mas… Que amigos? Só converso mesmo com o pessoal da repartição, e eles estão todos lá na festa…

Optei por algo mais espiritual, uma meditação, uma revisão de minha vida… Ficar orando… Até tentei, mas durou pouco… Uns cinco minutos… E eu achei a coisa toda ridícula demais… Nem o fim do mundo me deixou menos crítico… Soturno…

Tentei até me desesperar, gritar pela janela, me jogar pela janela… Tomar uma overdose de remédios, que nem a menina da telefonia…  Sem chance… Meu senso de ridículo não me permitiria algo tão histriônico… Nem covarde eu consigo ser… Uai…

Portanto vamos ficar aqui, nós três, eu, o cachorro e o computador, esperando o fim… Em silêncio, sem nenhum heroísmo ou algo muito ridículo… Como sempre tem sido…

Toca a campainha. Quem será? Não vem ninguém aqui há meses… Uai… Quem será? A última conta de luz? A derradeira pizza, por engano?

No olho mágico da porta vejo o rosto da moça do apartamento da frente. Seus olhos estão vermelhos. Ela está assustada… Abro a porta.

Ela está soluçando, não consegue falar direito: po… posso ficar aqui com o senhor?

- Uai, pode… Eu digo… Mas… O que houve com você, moça?

- O senhor não sabe? O mundo vai acabar, daqui á uma hora…

- Cinqüenta minutos…

- Pois é, cinqüenta minutos… E o senhor está aí com essa cara… Me desculpe mas…

- E que cara a senhora queria que eu estivesse?

- Que cara? Sei lá, cara de alguma coisa qualquer… Desespero, dor, ódio, sei lá… O senhor não está sentindo nada?

Fiquei com vergonha de dizer que não…

- O SENHOR NÃO ESTÁ SENTINDO NADA?

- Não senhora…

- Mas, mas… Isso não é possível… É imoral… É o fim do mundo, o senhor não percebe? O senhor não tem filhos, pessoas de quem o senhor gosta, pessoas que gostam do senhor?

- Tenho filhos sim, moça, mas eles não gostam muito de mim, não…

- Não gostam do senhor? Por quê?

- Ah, é quando eu me separei da mãe deles…

- O que aconteceu?

- Eu fui me embora…

- E depois?

- Eu nunca mais apareci na vida deles…

- O senhor foi embora, e nunca mais apareceu? Nunca mais viu os seus filhos? Por quê?

- Não sei direito não, moça… Me mudei pra cá, arrumei o emprego na repartição… E fui ficando por aqui, aqui dentro…

- O senhor foi ficando aqui, dentro desse apartamento, e nunca mais viu os seus filhos?

- É, moça…

- Mas o senhor não sente nada, saudade, culpa? Nunca ligou para eles?

- Não… Nunca… Nada…

- Não acredito… O senhor não está desesperado porque nunca mais vai ver os seus filhos?

- Não, moça…

- Mas… Mas…

- Mas o quê?

- Não sei o que dizer…

- Não diga nada, uai… É tão fácil ficar calado…

- O senhor está me irritando profundamente…

- E por que, moça?

- Não sei, só sei que estou com vontade de gritar…

- E grite, uai… Acho que no último dia da humanidade, a gente pode gritar depois das 22 horas… Se bem que tem o horário de verão, e a síndica do prédio é durona,a senhora sabe…

- CALA ESSA BOCA!

- Desculpe, moça…

- Não, não precisa se desculpar, eu é que preciso, eu é que estou aqui na sua porta… Ahhh, eu não tô legal, o senhor me desculpe… Eu vou indo…

- Não, não, quer dizer… a senhora quer entrar?

- NÃO! Quer dizer, sim, quer dizer… Acho que não sei… AHHHHHHHHH EU NÃO AGUENTO MAIS ENTENDEU? EU NÃO AGUENTO!

- Calma moça…

- Calma é o escambau… O mundo vai acabar daqui á meia hora e o senhor quer que eu fique calma?

- Vinte minutos…

- O quê?

- O mundo vai acabar daqui á vinte minutos… Dezenove…

- AHHH, eu não agüento isso… Me abrace, por favor, eu não agüento isso, não agüento estar sozinha nessa hora… Me abrace, por favor… Diga alguma coisa, alguma coisa inteligente… O mundo ai acabar assim, sem nada… O mundo vai acabar e eu aqui parada nessa porta, tendo essa conversa idiota…

- Mas e o seu namorado, moça? Onde ele está?

- Eu não tenho namorado…

- Mas e aquele rapaz que vem sempre…

- Ele não é mais meu namorado…

- Vixe! Não? Mas eu vi ele, por aqui, ontem…

- Agora a gente tá só ficando…

- Ficando?

- É… Ele fica comigo nas quartas. Nas terças e quintas ele tem uma namorada… Um lance dele, mais espiritual…

- E nas sextas?

- Nas sextas, ele tem um rolo com uma outra pessoa…  Ela é casada… O marido viaja nas sextas… Mas a parada é só sexual mesmo…

- Ahhh bom… Não… não… Quer dizer… Puxa, que azar… Bem que o mundo podia ter acabado numa quarta, né, aí a senhora podia passar esse momento tão importante ao lado dele, né? Fim do mundo é mais importante do que final de copa do mundo… acho…

- É… Ahhhhhhhh… Ahhhhhhhh… Ahhhhhhhhh…

- Calma moça, calma… A senhora está passando mal? A senhora está sofrendo muito com essa estória dele ter outras mulheres?

- Não, não… NÃO!  Não é nada disso…  Você é muito bronco, mesmo, muito primitivo… Não entende nada… Hoje em dia é assim mesmo… Eu posso compreender a necessidade dele de ter outros relacionamentos, de aproveitar ao máximo o que a vida pode proporcionar a ele… E eu tô meio caidona, sabe? Nós até fazíamos parte de um grupo de gente que não consegue se limitar por essa moral antiquada… Essa coisa de ter uma pessoa só, só um amor… Não, não é isso meeeesmoooo…  Essas coisas pequeno-burguesas… Não, não… Mas o senhor não vai entender…

- Entendo… Quer dizer… não… sei…

- Entende? Entende nada…  É horrível terminar assim… de um jeito tão idiota… Eu até ia encontrar com umas pessoas pra gente passar o fim juntos… pessoas importantes, inteligentes… Mas aí eu peguei no sono e só acordei agora… AHHHHHHHHHHHHH… NÃO, NÃO…

- Entendo… Bom… Pelo menos a senhora tem ele… quer dizer… tinha… bom…  nas quartas… né? Se desse a sorte do mundo acabar numa quarta…

- Você pode fazer o favor de calar essa boca e me abraçar?

- Pois não, moça…

- AHHHHH, OLHA! OLHA!

- Olha o que, moça?

- Olha o relógio, a gente ficou conversando e não viu o tempo passar, faltam dois minutos, me abraça, por favor, me abraça forte… AHHHHHHHHHHH!  O que foi isso?

- Isso o que, moça?

- Isso, O que aconteceu? Aconteceu? Já passamos da meia-noite…  Você ouviu algum barulho? Será que a gente morreu e não viu? Será que estamos vivos? Ainda estamos no mundo? O que aconteceu? Estamos no além? Na quinta dimensão? Viramos luz?

- Acho que não aconteceu nada não, moça…

- O QUÊ?

- Nadica de nada, moça…

- Ahhhh não, não acredito… Não acredito… O mundo não acabou!!! O mundo não acabou… O mundo não acabou… Não pode ser, o mundo não acabou… O MUNDO NÃO ACABOU! AAHHHHHHHHHHH! Não aconteceu nada? Não vai acontecer nada? NÃO VAI ACONTECER NADA, PÔ?

- Calma moça, calma… Pode ser o horário de verão…

SACA?

Tenho ficado impressionado com a quantidade de mulheres sozinhas que me procuram, no consultório. Na categoria “mulheres sozinhas”, incluo também aquelas que estão em relacionamentos nos quais o parceiro está, mas não está, saca? Não? Eu também não, mas, acredite se quiser, esta é a categoria mais densamente povoada do meu gráfico relativo á população feminina da nossa espécie, no momento. Pelo menos, as que me procuram…

Como é um relacionamento no qual o parceiro está, mas não está? Ah, ele está, mas não tem compromisso nenhum de estar lá amanhã ou depois. Ele está “ficando” com ela (e com a torcida do Flamengo ao mesmo tempo) enquanto a “parada rolar”, saca?

Algumas clientes me contam o mesmo roteiro: ela estava namorando um rapaz. Daí eles se separaram. Depois da separação, “ficaram” durante algum tempo e ele arrumou outra. E agora, como estão? Eu pergunto… Ah, agora a gente tá só de “rolo”, saca?…

Vejam, em um pequeno parágrafo, temos três categorias diferentes de relacionamentos: namoro, ficar e rolo. Não sei se sei claramente o que vem ser cada uma e a diferença entre elas, mas me parece que o que as caracteriza, são os teores de comprometimento com a relação, encontrados: o baixo, o baixíssimo e o quase inexistente, que seria uma espécie de “Coca-Diet” dos relacionamentos.

Traduzindo: Ela tinha um namorado. Eles tinham um relacionamento. Havia momentos, conflitos, negociações, resoluções de conflitos, sexo, que ás vezes era bom, ás vezes era ruim, e ás vezes não rolava. Gozo, lágrimas, cobranças, baixarias, momentos sublimes… Eles saiam juntos para ir jantar, ir ao cinema, ir visitar os pais dela, os dele, a tia chata que está no hospital… Ele tinha que comprar um presente para ela no dia do aniversário dela, ela no dele… Dia dos namorados… Levar o cachorro para dar uma volta, dar uma dura no irmão menor dela, que não respeita ninguém… Um auxiliava o outro a estudar para o concurso, a prova da carteira de motorista… Ela lia o evangelho pra ele, que era ateu… Enfim, algo cheio de altos e baixos, momentos bons e ruins, alegres e tristes, que eles iam vivendo juntos, compartilhando… Tipo “Eduardo e Mônica”… Saca? Estavam até pensando em noivar… Em 2012 (se o mundo não acabar…)

Então ele começou a achar ruim essa história, por que tudo isso estava “limitando a liberdade” dele, e ele é muito jovem e precisa “viver a vida”, saca?… Uai tchê, mas aquilo tudo lá que eles estavam vivendo juntos não é a vida? É o que então? O que é a vida, então?

Mas ele achou (e os pais dele concordaram) que ele é “muito jovem para se comprometer”, e que precisa “aproveitar mais a vida”… Afinal, ele só tem trinta e cinco anos… Eles romperam o namoro…

Se você acha que cada um seguiu o seu rumo na vida, lambendo as feridas e cicatrizando o que ficou aberto, para se permitir uma nova relação com outra pessoa, você está completamente enganado. Eles agora inauguraram uma nova modalidade: o ficar. Eles “ficam”, de vez em quando.

Qual é a diferença? Bem, de toda aquela lista de coisas que eles faziam juntos, lá em cima, sobrou apenas o sexo, e sair, vez por outra para um jantar ou um cinema (cada um paga o seu, que fique bem claro). Ou seja, tira-se fora o ônus da relação, e fica-se apenas com o bônus. Filé sem osso, peixe sem espinhas, aquelas saladas que já se compram prontinhas para ir á mesa, não precisa nem lavar… Empacotadinho, você nem suja as mãos… Genial, não?

E o que aconteceu nos capítulos seguintes? Bem, ele arrumou outra namorada. Mas… Ele não era jovem demais para perder a sua “liberdade”? Sim, mas essa é gatíssima, e tem uns dez anos a menos, e… é malhadíssima, e… coisa de alma, espiritual, saca? Coisa de outra vida…   E a cliente?  Eles se separam de vez? Você poderia perguntar. Acabou o “ficar”?

Sim e não… Mais ou menos… Eles agora não estão mais ficando, eles estão de “rolo”. Saca?

Agora, de toda aquela lista, só sobrou o sexo. E é sempre bom, porque ela agora é a “outra”, e sexo com a outra sempre é mais gostoso, saca?

Este sim é o supra-sumo da “relação free”, “Amor” livre mesmo, a grande evolução da nossa espécie, o fast-food dos relacionamentos, só prazer, puro prazer… A Coca-Zero: o fast-foda. Nenhum compromisso meeeesmoooo! Nenhum sofrimento, nenhuma preocupação, nenhuma chateação. Até uma garota de programa, que recebe dinheiro explicitamente pelos seus serviços, recebe mais consideração…

Sim, podemos freudianamente enumerar uma lista de motivos para ela topar um “negócio da china” destes, e eu faria isto sem nenhuma objeção. Mas quando algo vira uma epidemia mundial, penso que temos que ir por outro caminho…

Já dizia Carl Jung em meados do século passado (JUNG, C.G.; Sobre o Amor - Seleção e edição de Marianne Schiess; Editora Idéias & Letras, Aparecida, SP, 2005; pg.23):


Assim como nenhuma planta cresce contra a morte, não existem meios simples de se facilitar uma coisa difícil, como no caso da vida. Podemos somente eliminar a dificuldade por meio de um correspondente emprego de energia. As soluções libertadoras só existem quando o esforço é integral. Todo o resto é coisa mal feita e inútil. Só se poderia pensar em amor livre se todas as pessoas realizassem elevados feitos morais. Mas a idéia do amor livre não foi inventada com esse objetivo e sim para deixar algo difícil parecer fácil. Ao amor pertencem a profundidade e a fidelidade do sentimento, sem os quais o amor não é amor, mas somente humor. O amor verdadeiro sempre visa ligações duradouras, responsáveis. Ele só precisa da liberdade para escolha, não para sua implementação.Todo amor verdadeiro, profundo é um sacrifício. Sacrificamos nossas possibilidades, ou melhor, a ilusão de nossas possibilidades. Quando não há esse sacrifício, nossas ilusões impedirão o surgimento do sentimento profundo e responsável, mas com isso também somos privados da experiência do amor verdadeiro. O amor tem mais do que uma coisa em comum com a convicção religiosa: ele exige um posicionamento incondicional, ele espera uma doação completa. E como apenas aquele que crê, aquele que se doa por completo a seu Deus, partilha da manifestação da graça de Deus, assim também o amor só revela seus maiores segredos e milagres àquele capaz de uma doação incondicional e de fidelidade de sentimentos. Como esse esforço é muito grande, só alguns poucos mortais podem vangloriar-se de tê-lo realizado. Porém, como o amor mais fiel e o que se doa ao máximo sempre é o mais belo, nunca se deveria procurar o que pudesse facilitá-lo. Só um mau cavaleiro de sua dama do coração recua diante da dificuldade do amor. O AMOR É COMO DEUS, AMBOS SÓ SE OFERECEM AOS SEUS SERVIÇAIS MAIS CORAJOSOS.

É claro que Jung está falando de algo muito elevado, de um modelo ideal. Mas não podemos deixar de olhar para a situação em que nos encontramos, na qual estamos fazendo justamente aquilo que ele diz ser “coisa mal feita e inútil”, aquilo que ele diz não ser amor, e sim apenas humor, e nos perguntarmos: onde este trem vai parar? O que acontece quando tornamos algo difícil parecer fácil? O que acontece conosco, quando não queremos mais viver nenhum tipo de sacrifício pelo amor? Nenhum tipo de sacrifício? O que acontece conosco quando renunciamos ao amor, ou a possibilidade de vir a conhecê-lo, mesmo que de longe? O que acontece conosco quando renunciamos á renuncia, e partimos numa viagem desesperada em busca de prazer?

O que acontece conosco quando nos prostramos aos pés de uma deusa chamada liberdade, mesmo que não tenhamos a menor idéia do significado espiritual desta palavra?

Podemos talvez nos perguntar o que vai acontecer com essa geração de homens e mulheres, essa geração de menininhos e menininhas mimados que só querem comer a cobertura de chocolate do bolo? Menininhos e menininhas que quando encontram o recheio de ameixa, logo pegam outra fatia, para comer só o “docinho”… O que espera essa geração de gente que foge da entrega e do amor, que nem o diabo foge da cruz? Essa gente que foge do compromisso, de decisão? Da escolha, do sacrifício, essa gente que foge da dor… E da vida… O que acabará por encontrar?

Talvez esta fala do velho sábio esteja relacionada com a explosão nas vendas de antí-depressívos e antí-ansiolíticos que observamos nas últimas décadas…  Talvez este assunto que discutimos aqui esteja relacionado de alguma maneira com as previsões sombrias da OMS (Organização Mundial de Saúde), de que teremos 35% da população mundial sofrendo de depressão em 2020, e outros 35% atolados em alguma forma severa de adição, sejam drogas, alcool, comida, sexo ou compras…

Saca?

SANTO SÓ TEM NO CÉU! (MAS AQUI NA TERRA, DEVAGARINHO…)

Sai do consultório, e como sempre faço, passei na banca de revistas para ver as manchetes dos principais jornais do país, um velho hábito que a Internet não comeu.

Gosto de vê-los assim, lado a lado. Comparo as notícias que foram escolhidas para serem os carros-chefes, a maneira como foram veiculadas, o tamanho e a importância que cada editor deu a cada notícia, enfim…

Naquele dia todos eram unânimes: MARINA SILVA É CANDIDATA Á PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA! Todos, sem exceção, deram a mesma manchete. Isto não é algo que se vê todo dia… Peixe grande á vista!

Ao meu lado, na banca, um cara um pouco mais velho do que eu também lê as manchetes. Está agitado, ansioso, doido prá falar com alguém… Olha pra mim e diz: – É, quero ver esses caras governarem, quero ver eles fazerem do jeito que estão dizendo que vão fazer… Percebo o tom da conversa e digo: – Pois é, santo só tem no céu… Ele esboça um sorriso de alívio e empatia… Mas eu emendo: – mas aqui na terra, devagarinho, as coisas vão caminhando pra frente também, né?  Seu rosto fechou. O esboço de sorriso sumiu e deu lugar a uma expressão levemente amarga, uma expressão fraca de ressentimento e cinismo… Não disse mais nada e saiu.

Não sou conhecedor do mundo da política. Entendo tanto do assunto, quanto entendo de futebol. Ou seja: NADA. A política me interessa enquanto fenômeno de massas. Assim como a Gustave Le Bon, me interessa a Psicologia das massas. Como se movem as águas da emoção nos corações e mentes das multidões. Política fala de símbolo, sonho. Há muito tempo que o candidato que vence a eleição não é necessariamente o melhor político, ou administrador público, mas sim aquele que tem os melhores profissionais de marketing. Há muito tempo que as pessoas estão votando naquele que consegue traduzir melhor os seus sonhos e anseios. Naquele que lhes vende melhor o que elas estão querendo ouvir naquele momento. Mesmo que ás vezes, não saibam que aquilo que estão ouvindo, e que está tocando tanto em seus corações e mentes, é exatamente aquilo que estavam prontas para ouvir e não sabiam.

Quanto mais um candidato tem o dom de ser a voz do que anda no inconsciente coletivo de uma época e um povo, maior o seu poder de sedução e carisma naquele lugar e momento. Seja ele homem, mulher, branco, preto, jovem, velho… Este é o caso de Lula, Hugo Chávez, Juan Domingos e Eva Perón, Fidel Castro e Che Guevara, John Kennedy, Barak Obama, Lênin e Trotsky, Mao Tsé Tung, Getúlio Vargas, Winston Churchill, Charles De Gaulle, Fernando Collor, Adolf Hitler…

Independente de julgamentos e comparações, todos estes nomes, em algum momento e lugar, foram a imagem viva do que andava no inconsciente das pessoas daquele lugar e tempo. E se tornaram símbolos de alguma coisa. Alguns até se tornaram mitos, que já é uma categoria acima do símbolo. Um mega-símbolo que se eterniza. O sonho de consumo do Lula neste momento: mitificar-se e entrar para o hall dos imortais… Mitos nunca morrem… Símbolos têm muito poder sobre os corações e mentes das pessoas. Símbolos sintetizam. Simbolizam o indizível. Não é fácil vencer uma eleição, quando se está competindo com um símbolo. As pessoas não decidem com a razão, decidem com a alma. E está, é imprevisível. A alma ama o símbolo, por que só o símbolo entende os seus anseios. Só o símbolo fala á alma.

No ano que vem, teremos uma oportunidade incrível de assistir, assim na terra como no céu, um encontro astrológico entre dois gigantes. Lá em cima, Saturno e Urano estarão frente a frente, em um “aspecto astrológico” conhecido como: oposição. A oposição é um aspecto tenso. Dois princípios opostos, num embate aberto, em busca de um equilíbrio que possa unificar a cisão. Saturno representa o velho, aquilo que está confirmado e consagrado pelo tempo, e Urano o novo, aquilo que ainda não é, mas que se impõe com uma força irresistível e indomável. A força do novo tempo, inevitável. Ou seja: um embate violento entre o que é e o que será.

Aqui embaixo, na terrinha, teremos uma eleição presidencial que vai colocar provavelmente frente á frente, os representantes dos dois princípios que no céu se enfrentam em busca de harmonia.

Marina Silva será a representante de Urano. Serra e Dilma, os de Saturno.  Por isso a candidatura Marina causa impacto e temor nos adversários, apesar do pouco capital político que ela dispõe no momento. Marina representa o novo, o sonho, a utopia uraniana.  Tal qual Barak Obama foi também o seu representante na eleição que ganhou de “lavada” do representante saturnino, no ano passado. Mas não pensem que o novo é o fato dele ser negro, ou mesmo ter um nome árabe, se bem que estas características o teriam inviabilizado em um momento menos uraniano. Marina também não representa o novo porque seja negra ou mulher.

O novo, que estas pessoas representam, neste momento, é a volta da alma ao cenário político. Marina e Obama são pessoas, e não apenas personagens. Eles têm alma, seguem preceitos éticos. Tem sentimentos.  Estão na política há algum tempo e não venderam as suas almas. Não ficaram milionários, não participam de escândalos. Não traíram seus companheiros por dinheiro ou poder. Cumprimentam as pessoas. São respeitados e amados por aqueles que os conhecem pessoalmente e convivem com eles, e não apenas pelos seus fãs.  Não se transformaram nas suas próprias sombras.  Estão presentes, são de carne e osso, tem família, marido, mulher, filhos que eles criam. Amigos que os consideram amigos. Tem religião. De verdade. Não são apenas “homens-públicos”. São seres humanos. Este é o novo: seres humanos na vida pública.

O novo é melhor ou pior do que o velho? O novo é simplesmente novo. Inevitável. O caminho impassível da evolução. Como dizia uma velha canção: o novo sempre vem.

Mas não pensem que Saturno vai entregar a rapadura facilmente. Ele vai jogar duro. E Saturno sabe jogar duro, coisa que Urano desconhece, pois é um tanto quanto ingênuo. É novo, ainda. Saturno é ultra-realista, maquiavélico. Vai usar todas as suas armas, a sua inteligência fria, calculista, cínica e corrosiva. Vai pesquisar cada centímetro da vida de Urano para provar que ele também é corrompido e que sua conversa é infantil e ingênua. Enfim… O velho… Com seus velhos, pragmáticos e eficientes hábitos.

Quem vencerá o embate? Como saber? Estaremos prontos para o novo? Queremos mesmo o novo? Será o novo, inevitável? Só o tempo vai responder com certeza… Mas uma coisa é certa, a oposição se resolve quando o dois aspectos opostos encontram alguma forma de harmonia… Um tem um tanto de coisas para aprender com o outro. O velho e o Novo são dois Arquétipos, e um não vive sem o outro… Santo mesmo, só tem no céu, mas aqui na Terra, devagarinho, as coisas vão caminhando para frente…

OURO DE TOLO ( BE HAPPY)

Li recentemente uma entrevista em uma revista de grande circulação nacional, que me deixou estupefato: o pesquisador inglês Aubrey de Grey, que conduziu durante 14 anos suas experiências na prestigiada Universidade de Cambridge, na Inglaterra, afirma que em função de tecnologias médicas já disponíveis, e outras que despontam no horizonte da ciência, o ser humano dentro de uns 25 anos, estará habilitado a habitar o planeta Terra, com o mesmo corpo, não pelos oitenta e poucos anos de que dispomos atualmente, mas por uns mil anos.

Mil anos. Exatamente isto que você leu. Mas o motivo de minha estupefação, ao contrário do que você leitor, talvez possa estar imaginando, não é a ousadia da mente brilhante do cientista inglês, e nem a maravilha de nossa moderna sapiência. O que me espanta é que existam pessoas que desejam permanecer vivas por mil anos.

O que faríamos em mil anos, diferente do que fazemos em oitenta?

Sim, podemos dar oitocentas e noventa e nove voltas no globo, comer todas as comidas exóticas possíveis e imagináveis. Beber todas as cachaças. Experimentar todas as posições do Kama-Sutra e inventar outras tantas que deixariam os seus autores envergonhados… Rezar para todos os deuses, meditar em todos os mosteiros… – Se o seu lance for assim meio “espiritual sem uma religião definida”- Fumar todos os Haxixes, cheirar toda Cocaína possível e impossível… Outras drogas talvez, que produzissem um orgasmo nunca antes sonhado… Um orgasmo que durasse… Três horas… Ou três anos… Aprender a pilotar todos os tipos de carros, barcos, helicópteros. Asa delta, saltar de para-quedas. Podemos todos ganhar medalhas de ouro nas olimpíadas e nos tornar tão bons de bola quanto o Ronaldinho Gaúcho. Podemos aprender a tocar todos os instrumentos musicais e nos transformarmos em Edward Van Hallen… Ou Rafael Rabello… Poderíamos nos tornar escritores tão profundos como Dostoyevsky. Artistas tão revolucionários quanto Jackson Pollock… Sem o inconveniente de termos que suportar a dor e o sofrimento existencial que a sensibilidade excessiva dessas pessoas lhes custava, nos menos de oitenta anos que suportaram por aqui… Podemos? Sim, podemos… Ser inteligentes como Jonh Lennon…  Como Mick Jaegger… cantar  e rebolar ”I Can’t get no… Satisfaction”… Por mil anos… Especialmente as pessoas que passarem esses mil anos montadas na grana… Mas… Uma pergunta aqui dentro não quer calar: será que o nosso nível de consciência mudaria tanto assim nesses mil anos?

E se não mudar muito, e a gente ficar mil anos dando voltas e mais voltas ao redor do umbigo do nosso ego, repetindo os mesmos erros, teimando as mesmas teimosias, enxergando o mesmo horizonte limitado e machucando a nós mesmos e aos nossos próximos mais próximos com as mesmas faltas de amor, coragem e compreensão que exercemos ao longo de oitenta e poucos?

Alguém poderia argumentar que com mil anos, e sem o fantasma da velhice nos atormentando, teríamos mais tempo para mudar, para evoluir enquanto seres humanos, nos tornar melhores.
Como vamos saber? Não sei… Mas penso que há aqui, algumas questões fundamentais. Questões das mais importantes para estarmos discutindo atualmente, além do caminho das Indias: o que é a morte, o que é a velhice e para o que é que estas coisas servem?

E elas servem para alguma coisa?

Vamos ver alguns trechos da entrevista do “profeta da imortalidade”: (DE GREY, Aubrey, Revista Istoé, Numero 2070, 15 Jul 2009, Editora Três. Pgs.6 a 11.)

Não ficaremos mais frágeis, decrépitos e dependentes com o passar dos anos… O que temos que ter em mente é que é muito ruim para a humanidade saber que todos ficarão frágeis e doentes com o passar do tempo…

Parece um trecho de alguma fala do “Grande Administrador Mundial” do “Admirável Mundo Novo” de Huxley, né? Mas… Será que é isso mesmo? Quero dizer, será que a fragilidade e a dependência de nossos semelhantes, a que a velhice nos convida, são realmente ruins?

É óbvio que eu também sei que a resposta óbvia para esta pergunta é sim. Mas como um velho judeu, respondo uma pergunta com outra: Bom? Ruim? Para o quê? Para quem? Sob que ótica, diante de qual paradigma?

O escritor e analista junguiano, James Hillman, um velho judeu, que recentemente publicou o livro: “A Força do Caráter”, onde aborda a vida na terceira idade de uma forma brilhante e revolucionária, começa a sua obra com uma frase surpreendente que já muda o rumo da nossa conversa: “A velhice não é acidental, É algo necessário á condição humana, pretendida pela alma.”

A velhice não é acidental? Como assim? Então quer dizer que é algo que faz parte da vida, algo pelo que temos que passar, algo que faz parte do projeto de quem nos criou, seja Deus, Darwin, Dawkins, ou quem você preferir?

Por qual razão, Jesus, Baha’u’lá, Buda, Jeová, Alah, Jah, ou ainda o acaso, se você preferir, desejaria que nós, suas criaturas preferidas (?) passássemos por algo tão feio e sem heroísmo e glória, como é a velhice?
É algo necessário á condição humana? Necessário? Necessário para o quê? Voltamos á nossa pergunta anterior: para o quê servem a morte e a velhice?

E para arrematar: a velhice é algo PRETENDIDO pela alma? Pretendido? Quer dizer… Desejado? A alma deseja a velhice? Quem é essa tal de alma, de que lado ela está jogando? Por que a alma desejaria a velhice? Qual é a vantagem evolutiva da velhice? Por que razão uma mulher linda, maravilhosa, desejada, poderosa, precisaria passar anos de sua vida sem a sua beleza e poder, e ainda depender do amor dos seus filhos (filhos?) para ter um pouco de carinho e afeto verdadeiros, quando isto é a única coisa que realmente necessitamos?

Por que razão um homem voraz, riquíssimo, poderoso, um garanhão, precisaria passar por alguns anos de sua vida sem poder usar o seu poder para nada além de conseguir furar a fila do urologista, e ainda depender do amor dos seus filhos (filhos?) para ter um pouco de carinho e afeto verdadeiros, quando isto é a única coisa que realmente necessitamos?

Vejam como estas questões nos colocam diante de encruzilhadas.

Não tenho respostas para elas. Assim como você que está lendo estas linhas, também vivo imerso em um paradigma que me ensina que o objetivo da minha vida é que eu “pegue” todas as mulheres que eu puder, tenha um carro melhor do que o do meu vizinho, e seja feliz. Mas assim como você, também não faço a menor idéia do que seja: “seja feliz”.

Será que se eu der oitocentas e noventa e nove voltas no globo, comer todas as comidas, experimentar todas as cachaças, drogas, posições do Kama-Sutra, etc., sempre jovem e belo como o Dorian Grey de Wilde, eu vou ser feliz?

Espero sinceramente que a resposta seja sim. Que se for não, estamos num mato sem cachorro… Estamos?