PERDEMOS

Sou um telespectador atípico (acho)… No mínimo, intermitente. Passo muito tempo sem assistir (não sei se esse é o verbo correto) a telinha, e depois, de tempos em tempos, passo uns dois dias assistindo direto. Então o meu recorte é aleatório, tendencioso, descontínuo, sem muita linearidade racional, algo parecido com o “raciocínio” do polvo Paul. Mas, se a “voz do polvo é a voz de Deus”, quem pode garantir que o meu método é pior (ou melhor) que o dos outros?

 Em minha última incursão  ao mundo real (o mundo da telinha), fiquei impressionado com a dança dos assuntos. Eram apenas dois e ficavam martelando por todos os lados o tempo todo: a final da copa e o “crime monstruoso” praticado (ao que tudo indica) á mando de um ( ao que tudo indica) ex-jogador de futebol.

 O que eles tinham em comum? Bem, a resposta óbvia é o próprio futebol, mas não sou de contentar-me com a resposta óbvia. Sou por ofício e hobby, um mergulhador de profundidade. Me atraem as profundezas da alma humana, esse lugar tão sombrio e estranho ao mundo “clean & hype” ( seja lá o que isto signifique) da telinha.

 Sobre a Copa do Mundo, não tenho muito a dizer. O que pode ainda não ter sido dito naqueles programas de especialistas que passam o dia inteiro falando sobre o assunto? O quê os convidados “vips”, todos eles muito bem informados, bem vestidos e bem falantes ainda não disseram?

 Bem, não vi ninguém comentando o fato que para mim, foi o mais importante da copa toda: a volta da delegação argentina á Buenos Aires.

 O que pode ter de importante nisso?

 Aproximadamente dez mil pessoas saíram às ruas para prestar a sua homenagem a Maradona e seus “pibes”, que voltavam de uma derrota por quatro a zero para a Alemanha.

 Vejam, os caras perderam de quatro a zero. E foram recebidos com o maior carinho e respeito pelos “hermanos”. E não vale dizer que para a Argentina ter chegado até onde chegou, já estava de bom tamanho, por que todos nós sabemos que eles eram tão favoritos ao título quanto nós.

 A própria presidente da República Argentina deu uma declaração sobre o acontecido. Ela estava emocionada e disse se sentir muito honrada com a homenagem da população aos jogadores. – É nos momentos de dificuldade que devemos mostrar quem somos, ela disse…

 E os nossos jogadores, o que eles mostraram no momento da dificuldade, quando a Holanda virou o jogo?

 E o que nós mostramos á eles com a recepção e as homenagens que lhes prestamos?

 Sim mas… O que isso tem a ver com o outro assunto, o do ex-jogador, alguém poderia perguntar… Vamos ver se encontramos a conexão…

 Pra dizer a verdade, não entendo por que as pessoas ficaram tão chocadas com o crime…

 De ambos os lados dessa história, o que vemos são pessoas extremamente pragmáticas, objetivas, ambiciosas (focadas, como diria uma ex-musa do BBB que saiu pelada na capa de alguma revista de mulher pelada). Pessoas que não se deixam arrastar pelos sentimentos…  Pessoas que só pensam no resultado…

 Não é exatamente isso que as centenas de livros voltados para quem deseja ser “vitorioso no mercado” estão ensinando?

 Uma jovem que, segundo dizem as más linguas,  queria “garantir o seu futuro” engravidando de um cara rico e famoso…

 Desde quando isso é pecado em nossa sociedade?

 Bem, talvez ela tenha sido “burra”, engravidando do cara errado…

 Uma rapaz rico e famoso, que se “fez na vida”, tratando de,  segundo dizem as más linguas,  se “livrar de um problema” utilizando-se de métodos  que nossas “elites”, inclusive  alguns de nossos “representantes do povo” , desde o tempo do velho Cabral, estão cansados de utilizar…

 Desde quando isso é pecado em nossa sociedade?

 Aliás, o que é mesmo pecado? Alguém ainda se lembra? Em nossa sociedade?

 Bem, talvez ele tenha sido burro, utilizando profissionais de segunda categoria… Ou caindo em alguma armadilha desse ardiloso, o sentimento…

 Talvez esse seja o pecado, um pecado imperdoável: amadorismo…

 E a conexão com o assunto dos argentinos?  Essa, eu deixo pra vocês…

O POP O PAPOU ( ANO I D.MJ.)

“Michael Jackson morreu: seu passado era negro”, dizia o e-mail engraçadinho. Na televisão, um narrador descrevia as roupas dos convidados “vips”. Os que chegavam para a cerimônia fúnebre ao vivo. – Teve até lágrimas de verdade, alguém falou.

Na com-unidade do Orkut, algumas pessoas discutiam a diferença da trinca Elvis-Lennon-Jackson para com os mortais comuns: “eles pairam acima, são ícones do pop”, alguém postou (embora ninguém soubesse explicar direito o que a palavra ícone quer dizer).

Na Internet, nos jornais, nas revistas, artistas das mais variadas espécies e tribos choravam a perda como se fosse de um parente próximo. Doze pessoas se suicidaram, alguém me disse. Não viram mais sentido em permanecer no planeta sem a presença do autor do “moonwalk”

Impressionante. Fazia muito tempo que eu não via nada parecido. Comoção mundial. O caçula dos Jacksons realmente imprimiu o seu nome na calçada da fama. E no coração de muita gente.

Mas para mim, que sou uma criatura híbrida: metade psicólogo e metade ex-pop-star, a comoção me interessa num nível simbólico. Quando alguém consegue “pairar acima”, virar um ícone cultural, sua vida já não está mais sendo vivida num nível pessoal. O cidadão já não é mais dono do seu próprio nariz (no caso do Michael, literalmente). Virou domínio público. Iconificou-se. Tipo esse Jesus Cristo louro e de olhos azuis que se vê por aí. Tipo Beatles, tipo aquelas Marylins amarelas do Andy Warhol, e aquele cara gordo rindo na caixa da Aveia Quaker.

Será por isso que o cidadão Édson Arantes do Nascimento sempre se refere ao Pelé na terceira pessoa? Como se fosse realmente outra pessoa? Será que foi isso que Mark Chapman lembrou ao John antes de puxar o gatilho, e entrar para a história como o cara que matou John Lennon? Será que foi isso que matou Michael Jackson?

O pop não poupa ninguém, lembram? “O Papa levou um tiro à queima-roupa”. “Quem sai com a bunda na Caras, não sai com a cara na Bundas” , dizia um velho sábio. “Eh, oho, vida de gado”, diz outro velho sábio, parafraseando um gênio, o escritor inglês Aldous Huxley, que na década de trinta do século passado anteviu uma civilização de pessoas anestesiadas e “felizes”, vivendo uma vida de consumo programado e fugindo de qualquer espécie de sofrimento ou dor através de processos de condicionamento mental, medicina high-tech-anti-envelhecimento, e a droga perfeita: o “Soma”.

Na cena final do ainda contundente “Admirável Mundo Novo”, uma multidão “anestesiada e feliz” se atira avidamente em busca de emoções e sensações sobre um “selvagem”, que nada mais é, do que alguém diferente, alguém que ainda tem a coragem de sentir e viver a vida como ela é, com tudo o que ela tem.

Mas a verdade é que estamos cada vez mais parecidos com a multidão anestesiada e feliz de Huxley. Cada vez mais reduzidos a caras e bundas. Cada vez mais parecidos com uma massa cinzenta e disforme. Uma massa.  Como os nossos carros, todos com a mesma cara e todos cinza-metálicos. Uma massa de consumidores coisificados, como nos lembram Guy Debord na sociedade do espetáculo, Giles Lipovetsky na era do vazio, e Zygmunt Bauman na pós-modernidade líquida. Uma massa cinzenta de consumidores despersonalizados.

E sobre nossas cabeças, pairam flutuando os ícones do pop. A “casa dos artistas”. O Olympo pós-moderno. Nossos deuses de plástico com suas vidas conturbadas, gerando fotos escandalosas, fofocas para alimentar a voracidade veloz dos blogs e entretenimento real-time-on-line para nos salvar do tédio que o Rivotril não cura.

Quem ou o quê matou Michael Jackson? Essa pergunta ainda vai render muito ibope para muita gente, mas a verdadeira pergunta, na minha opinião , não é essa. Pra mim, a pergunta é: como ele aguentou tanto tempo? Como o seu corpo suportou tanta química para lutar contra a natureza e contra o tempo? Como seu coração suportou tanto anestésico para fugir da realidade e sustentar a ilusão da “Terra do Nunca”?

Não pensem que eu faço uma crítica moralista ou coisa que o valha. Não tenho moral para isso. Também pertenço à massa cinzenta. Quem está fora dela? Michael Jackson e a sua morte me interessam enquanto fenômeno sócio-cultural, enquanto símbolo. Não tenho nada contra a sua pessoa, e desejo, sinceramente, que ele possa ter um pouco de paz finalmente.

Mas o que a sua existência e o seu final melancólico simbolizam? O que estão sinalizando? Coincidentemente, uma das maiores revistas do país exibia como matéria de capa, uma semana depois do adeus ao deus do pop, uma reportagem imensa sobre as maravilhas da “medicina-high-tech-antí-envelhecimento”.

Comprovando a genialidade de Huxley, nossa civilização caminha passo a passo na direção de cumprir sua assombrosa profecia.

Michael Jackson é o nosso mártir. Nosso herói que morreu de overdose de anestesia, lutando contra o tempo e contra a realidade. Ele se foi, mas nós que ficamos, conseguiremos concretizar o seu sonho. Nós realizaremos “Neverland”, a terra do nunca, onde nunca se cresce e nunca se sofre.

Nós construiremos, em seu nome, o “Abilolado Mundo Novo”, onde nunca precisamos envelhecer. Onde nunca precisamos entrar no mundo adulto, com suas contradições e sombras. A terra do nunca, onde nunca precisamos entrar em contato com a dor, a culpa, as consequências dos nossos atos.

Nós construiremos o paraíso na terra, onde seremos sempre belos e jovens. Como Dorian Gray.

Seremos sempre menininhos e menininhas ingênuos, realizando todos os nossos desejos e vivendo livremente a nossa sexualidade, sem nunca nos envolver emocionalmente de verdade com ninguém.

Menininhos e menininhas comendo eternamente a cobertura de chocolate do bolo. Só a cobertura de chocolate. Todos serão de todos, e ninguém será de ninguém. Nossos filhos serão filhos da proveta. Finalmente aposentaremos Freud e nos libertaremos de todas as amarras mentais e emocionais que ainda nos prendem ao passado sombrio. “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós!” Michael se foi. Mas sua morte não foi em vão.

Aldous Huxley só errou uma coisa: essa nova era que se inaugura para a humanidade, essa nova era de “paz e felicidade” sem limites e sem dor, não será contada a partir de Ford. O marco zero será o martírio do deus do pop. Senhores e senhoras: estamos no ano I D.M.J.

DA UTILIDADE DO ORNITORRINCO

Das coisas que me espantam neste mundão-de-meu-Deus, uma das mais espantosas é, sem dúvida nenhuma, o Ornitorrinco.

Além de ser um mamífero que bota ovos, o que o coloca em uma categoria única entre os mamíferos e os animais que botam ovos, ele também é venenoso, como um réptil, e as fêmeas amamentam sem ter mamas. O leite escorre pelo peito da mãe e é lambido pelos filhotes, que acabaram de sair dos ovos. Esquisito…

O que, do ponto de vista classificatório, é um Ornitorrinco? É um mamífero? Sim, mas… Mamíferos não botam ovos… E não costumam ser venenosos… E costumam parir os seus filhotes… Esquisito…

É um ovíparo? Sim, mas… Ovíparos não mamam (e depois do César Passarinho, nunca mais se ouviu falar da presença de Ovíparos no Senado ou na Câmara… Com exceção das pombas… da Praça dos Três Poderes…)

O Ornitorrinco é um pesadelo classificatório. Um furo, uma exceção á regra. Uma aberração. Uma… Uma… INUTILIDADE!

Por que diachos tem que existir o Ornitorrinco? Por que Buda, Alah, Jeová, Jah, Deus, Jesus, o Grande Espírito, ou ainda o acaso… Se você preferir…  A evolução das espécies… Darwin, ou Dawkins…  Sei lá… Quem ou o que criou esse trem todo que tem por aqui… Por que ou para que esse cara criou o Ornitorrinco?

Deve ser para esculhambar os nossos sistemas classificatórios. Para o que mais poderia ser?

Para atrapalhar o bom andamento da ciência dos homens…

Sim é isso, só pode ser isso, o Ornitorrinco só serve para isso: para quebrar as nossas métricas exatas, para jogar areia na nossa máquina, para estragar a perfeição dos nossos sistemas classificatórios. É isso: uma sabotagem de Deus, ou o acaso, se você preferir.

Mas por que Ele faria isso? Por que Deus, ou o acaso, se você preferir, ia se dar o trabalho de criar uma aberração esquisita como o Ornitorrinco, só para  avacalhar a nossa métrica perfeita?

Deve ser inveja.

Sim, Deus ou o acaso, se você preferir, deve estar com inveja da gente. Ele nos criou, sim, mas… Depois viu o tanto que a gente evoluiu por nossa própria conta, o quanto que a criatura superou o criador… E sentiu inveja de nós…

Deus, ou o acaso, se você preferir, viu o quanto nós avançamos… A perfeição os nossos sistemas classificatórios… As maravilhas da genética… Logo, loguinho a gente tá criando gente também… E vamos fazer muito melhor do que Ele… Nós vamos pegar só os melhores cromossomos da nossa espécie…

Não vai ter mais gente burra, feia, gente fraca, medrosa, esquizofrênica… Só vai ter gente bonita, sarada, sexy… Gente esperta, sagaz… Seremos todos gênios da pintura, da economia, dos esportes… Não precisaremos mais envelhecer, adoecer… Viveremos mil anos com a mesma cara, tipo o Dorian Gray de Wilde, ou a Vera Fischer… Ou aqueles “vampiros – do – bem” que estão na moda… Seremos todos brilhantes como Tarantino… Brilhantes…

Todos milionários da bolsa… Bilionários, trilionários… Já nasceremos com uma alteração no DNA que nos tornará gênios da bolsa…  E da música… E da genética… Ninguém mais vai precisar trabalhar… As máquinas trabalharão por nós…  Seremos todos livres e belos… E ricos… Muito ricos… Viveremos para o prazer e o consumo… Iremos todos para Dubai…

Flutuaremos com nossos tênis super-hyper-high por Shopping Centers desenhados por arquitetos franceses chiquésimos e seremos felizes sempre… Para sempre…

Teremos Viagra, lap-tops, MP15, celulares, ar condicionado e antí-depressivos de última geração… E teremos mulheres com a bunda da tiazinha e a boca da Angelina Jollie… Que estarão sempre com aquele sorriso de capa da Caras… Nunca terão TPM, e “ficarão” com a gente sem exigir nenhum tipo de ARGGGHHH… compromisso… Huxley perde feio…

Por isso, Ele ficou com inveja. Por isso Deus, ou o acaso, se você preferir, o nosso criador, ficou com inveja de nós, a sua criatura. Ficou com inveja das “melhoriazinhas” que nós fizemos na criatura tosca e sem graça que Ele criou.

E então Ele criou o Ornitorrinco, para tentar nos confundir e ofuscar o brilho de nossa inteligência superior e de nossos sistemas de classificação. Por isso Ele criou aquela aberração. Aquele bicho escroto, aquela esquisitice que não se enquadra na nossa régua… E não serve pra nada…

Mas Ele não tarda por esperar… Logo loguinho a gente inventa um “Photoshop” para a vida real… E conserta o Ornitorrinco…

inTé + V :) C.Maltz.

2010 – O FIM DE UM MUNDO?

Como você já deve ter percebido, 2010 começou forte. Parece que a Natureza “ligou o turbo”. No consultório, voltei de um mês de férias e encontrei a maioria das pessoas vivendo uma aceleração radical em seus processos existenciais. Em português simples e claro: “o bicho tá pegando”.

E a Astrologia, esta velha senhora, o que tem a nos dizer nesse momento? Ela pode nos auxiliar de alguma forma a compreendermos e nos posicionarmos melhor em relação ao que está acontecendo, e ao que há de vir?

Do alto de seus 5.000 anos de idade, dona Astrô não se abala muito com pouca coisa.  Já viu impérios outrora indestrutíveis virarem ruínas… Já viu civilizações que antes ditavam as regras, virarem pontos turísticos… Viu demônios virarem santos, santos virarem demônios, metalúrgicos virarem presidentes, astros do rock virarem astrólogos, políticos outrora muito populares virarem Judas… Enfim… Ela já viu de tudo… E sabe que “a vida vem em ondas como o mar”… Vem e vai… Vai e vem…

Dona Astrô pode nos auxiliar muito num momento desses, em que a corda está esticando. Pode nos lembrar de que isto é um ciclo, e que os ciclos têm a sua natureza, necessidade e duração.

E que ciclo é esse?

Teremos em 2010, mais precisamente no final de Julho de 2010 um alinhamento que (felizmente) não acontece todo momento.

Urano, planeta regente do signo de Aquário, um dos três “deuses da mudança”, geralmente associado á processos de quebras e rupturas radicais em modelos vigentes, completa uma volta e chega ao primeiro grau de Áries, que é também o primeiro grau de todo o Zodíaco. Só isto, já é um acontecimento astrológico significativo, que marca um momento de renovação.

Junto á Urano, vem Júpiter, considerado pelos antigos, como o grande “benéfico” do Zodíaco, também está associado á avanços em paradigmas ideológicos.

No início de 1762, os dois astros estavam alinhados no primeiro decanato do signo de Áries. Este ano é marcado pelo inicio da guerra entre Espanha, maior potência naval da época, e a Inglaterra, que passaria a ser a nova potência maior. O grande império ibérico caminhava para o fim, e o nascente império anglo-saxão começava a despontar.

Em 1845, Urano e Júpiter encontraram-se mais uma vez nos primeiros graus de Áries. Naquele ano, o parlamento britânico promulgou a “Lei Aberdeen”, que foi um passo decisivo para a futura libertação dos escravos, evento que também, sem dúvida nenhuma, foi paradigmático para os padrões da época, e iniciou um novo ciclo para a humanidade, visto que teve um impacto profundo nas relações sociais e econômicas dali para frente.

Em Julho de 1927, novamente Urano e Júpiter chegavam aos primeiros graus de Áries. Aquele foi um ano marcado pela primeira travessia sem escalas do Atlântico, realizada por Charles Lindbergh em seu “Spirit of Saint Louis”.  Evento que sem dúvida deixou o mundo muito “menor” do que era até então. Aquele ano também foi marcado por acontecimentos políticos radicais que tiveram importância capital nos desdobramentos futuros. Em Agosto, uma revolta do exército chinês dá origem ao que viria ser o “Exército Vermelho”, que teve papel fundamental na revolução que transformou a face e a história daquele antigo país, e está na base do peso que ele tem hoje no planeta. Naquele mesmo ano, Benito Mussolini promulga a “carta do trabalho”, que transforma a Itália em estado corporativo, e abre as portas para o Fascismo, e Josef Stálin, após expulsar León Trotsky, torna-se líder absoluto do PC e da URSS. Novamente, um mundo estava terminando, e outro estava começando.

Como podemos ver, este alinhamento marca o início de uma mudança radical. As pessoas estão fazendo barulho á respeito de 2012, mas na verdade, o mundo acaba mesmo, é em 2010. Pelo menos o mundo tal qual o conhecemos até aqui.

O céu de 2012 não apresenta nenhum aspecto astrológico radical. Nenhum que chegue próximo ao que teremos esse ano.

Se não bastasse o encontro de Júpiter e Urano em Áries, que como vimos, marca novos momentos politico-ideológicos, temos ainda a posição de Saturno, senhor do tempo e das colheitas nos primeiros graus de Libra, fazendo uma “oposição” exata á conjunção Júpiter-Urano. E Saturno não está só. Com ele vem Marte, como todos sabem, o senhor da guerra. Se isso tudo não bastasse, Plutão, outro “deus da mudança”, implacável e compulsivo, faz uma “quadratura” á esse povo todo, nos primeiros graus de Capricórnio, outros signo “Cardinal”.

O céu está pesado. De todas as conjunções anteriores que eu citei, essa é, sem dúvida, a mais tensa e a mais radical. O velho e o novo estão cara-a-cara para um confronto que já se anuncia há uns três anos.  E agora não tem mais como “empurrar com a barriga”, “não tem mais pra onde correr”.

O que está vindo pela frente?

Quem tiver olhos, verá… Um velho mundo morrendo, e um outro, novo, nascendo…

Todos já estamos sentindo a onda gigante de renovação que está chegando…

As mudanças acontecem em todos os níveis: no planeta, em nosso país, aqui no DF e também, como não poderia deixar de ser, em nossos lares, consciências e em nossas vidas. Todos gostam de mudanças planetárias, mas quase ninguém gosta quando elas começam a acontecer em nossas vidas, de verdade.

Quase todos nós, conscientes disto ou não, admitamos isto ou não, somos apegados aos modelos e estilos de nossas vidas, por mais deficientes e causadores de sofrimento que eles sejam. Faz parte de nossa natureza. Somos todos, mais ou menos conservadores. Basta ver quando algo realmente novo chega a Terra, a reação contrária que causa, e a pouca adesão que conquista, num primeiro momento.

O Cristianismo hoje é uma potência política e econômica, influindo em governos, movimentando bilhões e capitaneando guerras. Mas no começo, se limitava a doze pessoas, e durante quinhentos anos, ser simpático a esta idéia era motivo bastante para mandar alguém ser almoço dos leões.

Só que tem momentos, que é mudar ou mudar. E esse é um desses momentos.

Todo esse transtorno e esse “rebuliço” em nossas vidas são as mudanças chegando e batendo na porta dos nossos velhos estilos de vida, que se defendem como podem. Com unhas e dentes, como Saturno e Marte sinalizam.

Será que estamos dispostos a mudar? Será que sabemos o que precisamos mudar? Ou será que ainda estamos pensando que os problemas em nossas vidas são causados pelo ex, pela ex, pelos filhos, a sogra, pelo Lula, pelo Arruda, por nossos inimigos, Deus, o diabo, etc.?

A Tsunami da transformação planetária está batendo na praia. Ou pegamos essa onda e vamos com força para a frente, ou ela nos pega e  quebra a espinha dorsal de nossas resistências. A hora de mudar é agora. Se a sua vida já está de pernas para o ar e você não está dando conta sozinho, procure ajuda. Um médico, padre, psicólogo, terapêuta, astrólogo, um amigo de verdade… Enfim, alguém que possa te ajudar a se enxergar, que nós não viemos equipados de fábrica com espelho retrovisor. Somos todos muito hábeis para enxergar cisco no olho do irmão, e cegos para ver a trave em nosso próprio olho… Boa sorte amigos, e coragem… Toda força á frente que o novo nos espera… E sua urgência ruge…

[]s C.Maltz.

DOIS

Tenho amigos estranhos. Que cultivam hábitos estranhos. Um deles adora números. Bem, não exatamente apenas números, mas histórias com números. Relações. Relações numéricas bizarras. Histórias que envolvem associações aparentemente absurdas com números. Este é o seu hobby…  Ele me manda números…

E eu, o que faço com esses números? Na maioria das vezes, nada… E ele também não me pede nada… Apenas me manda aquelas histórias com aqueles números, por e-mail, e ponto. Nunca disse uma palavra além do relato jornalístico (detalhadíssimo), e nas raras vezes em que nos encontramos pessoalmente, ele nem sequer mencionou o assunto.

Respeito a sua natureza racional e calada. Na verdade, sinto uma secreta atração por aquelas histórias, aquelas métricas, que finjo para mim mesmo, desdenhar. Prefiro não falar nada, pois temo que se eu disser algo, ele pare de mandar. Pessoa ímpar… E eu, na verdade, também tenho um meu estranho hobby: encontrar relações, conexões entre fatos, acontecimentos, imagens aparentemente sem conexão nenhuma entre si…

Ficamos, pois, assim, nesse diálogo de Babel: ele procurando nos números, no lado esquerdo do cérebro, a resposta matemática que silencie suas questões internas sobre o sentido da existência, ou a falta dele. E eu, buscando no lado direito, conexões intuitivas, sincrônicas que respondam a mesma pergunta…

Na semana passada, a notícia que ele me mandou era realmente fora do comum. Á princípio, não me chamou muita atenção, pois o título do e-mail parecia ser algo relacionado aos esportes, e eu não tenho o menor interesse em dados esportivos, tipo quantas vezes o Grêmio foi campeão em anos pares, ou coisas do gênero.

Mas algo indizível mandou, e eu abri a mensagem… O que ela dizia?

Um jogador alemão, Robert Enke, goleiro do Hannover e da seleção alemã, havia se jogado diante de um trem á 150 km por hora, num entroncamento ferroviário que ficava á aproximadamente dois quilômetros do local, onde sua filha de dois anos de idade, que havia falecido de alguma doença congênita, fora enterrada há mais ou menos dois anos atrás… Dois mil torcedores haviam passado a noite em vigília, dizia a mensagem. O último jogo que o cara jogou havia terminado empatado em 2X2…

No dia anterior, o jogador havia treinado normalmente, e á noite, foi com sua esposa, á uma exposição de arte feita com cadáveres humanos reais… Há meses, Enke vinha apresentando problemas com uma estranha “inflamação” que o afastava, ás vezes, de jogos e treinos.

Fiquei pasmo. E inquieto. Minha antena me sussurrava algo… O quê aquela tragédia toda tinha a ver com o número dois? Qual o recado que a vida estava me mandando com aquele triste acontecimento e aquela macabra simetria?

Vi algumas imagens na NET. A maioria, fotos oficiais de Enke como goleiro de diversos times europeus, e da seleção de seu país. Ser o goleiro da seleção alemã de futebol não é pouca coisa. Vem-me á cabeça, a imagem do gigante Sepp Maier, que fechou o gol e foi fundamental para a vitória daquele país em 1974. Não acompanho atentamente os rumos do esporte bretão, mas sei que outros grandes nomes já passaram por aquela posição, e sei também que não mais do que três goleiros de cada geração podem conhecer a honra e a glória de serviram á seleção de seu país.

Nas fotos, Enke aparecia com o sorriso e a empáfia dos vencedores. Um “winner”, como costumam dizer nossos irmãos do norte. Careca, durão. Um cara “hard”. O último homem, a última instância do “Deutsche Team”… Deus me livre de ser o jogador que tivesse que bater um último penal para o Brasil numa final de copa do mundo, com um cara daqueles pela frente…

Mas o que poderia ter acontecido, com um cara daqueles, para ele chegar ao extremo em que chegou?

Sim, havia a história da filha, e o fato do suicídio ter ocorrido á dois quilômetros do local onde a menina estava enterrada pode ser um sinal de que aquela ferida jamais havia cicatrizado no coração do pai, por mais durão que ele fosse…

Depois do ocorrido, a esposa do jogador comunicou a imprensa, que Robert Enke sofria de depressão, e tinha medo de que, se essa notícia vazasse, ele pudesse perder o seu tão almejado posto de goleiro da tricampeã mundial de futebol… E havia aquela exposição de arte com cadáveres reais… Arte? Que lugarzinho para uma pessoa depressiva estar passeando, hein?

Sai para caminhar um pouco e mudar o disco em minha mente, pois não conseguia pensar em outra coisa…

Na esquina, na banca de jornal, vejo na capa de uma dessas revistas de “vida saudável”, uma loira com pose de “winner” e a seguinte manchete: Ela perdeu doze quilos, virou loira e agora é outra mulher…

Outra mulher? Huuummmm…

Voltei para casa. Meu amigo cartesiano havia me mandado outra mensagem. Agora era apenas uma foto. Dois torcedores do Hannover abraçados, em vigília pela morte do ídolo querido.  Cada um dos dois usava uma camisa do Enke, com o nome do goleiro e o número um. Estavam de costas para o fotógrafo.

Plim, plim… Haviam dois Robert Enkes… O cara “durão” das fotografias, e outro, muito ferido emocionalmente. Um cara sensível que se abalou profundamente com a perda da filha, e não estava suportando a idéia de perder a sua imagem pública…

Mas… Seria a imagem pública tão importante assim, ao ponto de Enke preferir perder a vida a perdê-la?

Como isto é possível?

C.G. Jung, profundo conhecedor da mente e da alma humanas já falava, em meados do século passado, sobre a existência em nós, de algo que ele chamava de “persona” (SHARP, Daryl; Léxico Junguiano; Editora Cultrix, São Paulo, 1997)

Ela é, como o nome indica, apenas uma máscara da psique coletiva, uma máscara que finge individualidade, fazendo com nós e os outros acreditemos que somos indivíduos, embora estejamos, simplesmente, desempenhando um papel através do qual a psique coletiva se exprime. Quando analisamos a persona, despimos a máscara e descobrimos que aquilo que parecia ser individual é, no fundo, coletivo; em outras palavras, que a persona era apenas uma máscara da psique coletiva. Fundamentalmente a persona nada tem de real: não passa de um acordo entre o indivíduo e a sociedade sobre aquilo que um homem deveria parecer ser. Ele adota um nome, ganha um título, desempenha uma função , é isto ou aquilo. Em certo sentido tudo isto é real; contudo em relação á individualidade essencial de uma determinada pessoa, é apenas uma realidade secundária, uma formação de compromisso, fato no qual as demais pessoas muitas vezes têm uma parte maior do que a própria pessoa.  Ninguém pode, impunemente, desembaraçar-se de si mesmo em troca de uma personalidade artificial; até a tentativa de fazê-lo acarreta, nos casos comuns, reações inconscientes, sob forma de mau-humor, afetos, fobias, idéias obsessivas, vícios reincidentes, etc. O “homem forte” social, em sua vida privada, freqüentemente não passa de uma simples criança, no que diz respeito a seus próprios estados de sentimento. As exigências de adequação e de boas maneiras são um incentivo adicional a que se assuma uma máscara condizente. O que acontece, então, por detrás da máscara recebe o nome de “vida privada”. Esta dolorosa divisão familiar da consciência em duas figuras, muitas vezes absurdamente diferentes, é uma penetrante operação psicológica, fadada a ter repercussões no inconsciente.

Não há nada de errado com a persona. Ela é uma espécie de máscara social que todos temos e precisamos ter, para podermos nos adaptar e sobreviver ás pressões e aos atritos entre aquilo que verdadeiramente somos, e aquilo que a sociedade espera que sejamos… Ou que nós esperamos que ela espere de nós…

Ninguém sobreviveria á vida na terra sem a persona. Até mesmo os monges mais desapegados também têm apego… Á sua imagem pública de monges desapegados…

Na Índia, país considerado por nós ocidentais sem religião, como o supra-sumo de tudo que é espiritual, até hoje existem monges que não se sentam á mesa com pessoas de castas inferiores, para que isto não venha denegrir suas imagens públicas…

No episódio em que Jesus se encontra com uma samaritana á beira de um poço e lhe pede água, a mulher se surpreende por EL’e, um judeu, estar se dirigindo a ela, uma pessoa inferior. Sem saber que se tratava de alguém que estava á milhas e milhas e milhas de distância das convenções sociais da época, ela O adverte sobre os prejuízos que EL’e poderia sofrer em sua imagem pública por aquele ato “impensado”.

O problema começa quando esquecemos que somos pessoa, e passamos a nos identificar totalmente com a persona, o personagem, esta imagem pública vista por nós, no espelho que é o olhar do outro.

Vamos voltar á capa da revista de “vida saudável”: Ela perdeu doze quilos, virou loira e agora é outra mulher… Ou seja, ao transformar a sua imagem, ela passa a ser outra pessoa. A outra, a numero dois… E a número um? Continua lá, com todas as suas angústias, dores e fraquezas. Continua lá com toda a ansiedade que a levou a ficar doze quilos acima do seu peso natural. Continua lá. Subsistindo em uma região imediatamente abaixo da superfície fina da personalidade numero dois, que é a persona. Subsistindo sub-nutrida e abandonada. Carente, sedenta de atenção e amor. Continua exatamente lá. Exatamente do mesmo jeito que sempre esteve. Exatamente do jeito que a gente a deixou… Aguardando uma vacilação da “poderosa” numero dois, para mostrar a sua verdadeira face de fraqueza e desespero…

E quantos de nós, perdidos nesse mundo sem alma, identificados com esse mundo sem alma, tentando sobreviver nesse mundo sem alma, também não perdemos nossa conexão com nossa própria alma, e esquecidos de quem verdadeiramente somos, também nos identificamos com uma imagem qualquer, á ponto de acreditarmos que sem ela, é preferível a morte?

Quantos de nós trocamos a nossa alma por uma ilusão qualquer? Quantos de nós vestimos uma roupa qualquer, uma fantasia qualquer, e passamos a acreditar que somos o personagem, e que sem ele não somos nada, que sem ele não vale a pena viver?

Artista, ator, político, chefe… Rico, poderoso… Pobre, revoltado… Permissivo, doidão, durão…  Médico, psicólogo, astrólogo… Gostosona do momento, santo, pessoa espiritualmente evoluída… Branco, preto, japonês, árabe, índio, mulata, judeu… Qual é a sua máscara? Quem é você?

Quantos de nós somos também como bolhas de sabão, que brilham ao sol, mas que não resistem ao mais leve contato com a realidade?

O que somos nós, quem somos nós, o que estamos fazendo por aqui? Perguntas simples, que alguns consideram simplórias, mas, provavelmente, as mais importantes de todas.

O filósofo existencialista Albert Camus, considerava o suicídio, a única questão que realmente valia a pena ser discutida.

Discutir o suicídio é discutir a própria vida, o sentido e a graça que estão implícitos nesta questão.

Enquanto continuarmos adormecidos de nós mesmos, enquanto continuarmos sendo crentes desta “religião” materialista que domina o mundo e nossas mentes atualmente, e que nos ensina que somos coisa, continuaremos cegos para o sentido maior de nossas existências, e sujeitos a nos identificarmos completamente com os personagens que representamos.

A vida é muito mais do que isto, nós somos muito mais do que as nossas máscaras… E ás vezes, é só quando as perdemos, é que podemos nos encontrar de verdade…

Meu amigo pitagórico, agora me manda mais um e-mail sobre aquele dia fatídico: faziam dois dias, da grande comemoração dos vinte anos da derrubada do muro… Que desde o final da segunda grande guerra dividia o território e o coração do povo alemão… Em dois…